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Da compostagem ao biochar:  a rede do Terra Orgânica movimenta a agricultura urbana

Matéria publicada em 10 de dezembro de 2025.

Uma conversa de grupo online sobre preparados caseiros coloridos de beterraba e casca de ovo evoluiu para a principal frente de inovação de uma rede nacional de agricultura urbana. A descoberta coletiva de bioinsumos e biochar — um “anabolizante natural” para plantas — está pavimentando um caminho prático e poderoso para substituir completamente os agrotóxicos, revelando que o futuro da agricultura não está nas fórmulas químicas, mas na vida microscópica do solo. Esta é a história de como o conhecimento, quando flui livremente em rede, gera tecnologias revolucionárias a partir do diálogo entre saberes tradicionais e a urgência contemporânea por alimentos saudáveis.

A força de uma rede de aprendizagem não está na repetição de fórmulas prontas, mas na capacidade de seus membros de compartilhar práticas, gerar inovação a partir da troca e, coletivamente, descobrir caminhos antes invisíveis. Foi exatamente isso que aconteceu com a rede de compostagem comunitária articulada pelo Laboratório Terra Orgânica. O que começou com encontros para dominar a técnica básica da compostagem, no seu segundo ano, deu um salto rumo aos biofertilizantes avançados e ao biochar, impulsionado por uma sinergia espontânea entre os participantes.

Em entrevista a Paulo Sérgio Pires, do Núcleo de Comunicação Cigarras, Edson Prado, do Terra Orgânica, narrou essa evolução. “A gente puxou esse bonde e tem se demonstrado de grande sucesso. Muitas experiências se constroem dentro do grupo”, afirma. Ele explica que, após solidificar a base da compostagem, o grupo buscou inovações. Mas foi uma iniciativa de um parceiro, Derick Rezende, do Instituto Arandu, que acendeu o pavio de uma nova fase. “Ele foi no grupo e falou: ‘Galera, estamos estudando aqui no Instituto Arandu o próximo passo da compostagem. Porque a compostagem faz uma cama, prepara uma coisa, mas quem vai fazer a revolução mesmo é isso aqui’”.

O “isso aqui” eram os bioinsumos: preparados líquidos cheios de micro-organismos eficientes, específicos para funções como enraizamento, floração ou controle de pragas, feitos de forma caseira com ingredientes como beterraba e casca de ovo. As imagens e vídeos de equipamentos caseiros para oxigenação desses preparados eletrizaram o grupo. “Aquilo instigou o grupo inteiro. O grupo todo queria saber o que é isso, como é que faz”, relata Edson. O interesse foi tão grande que culminou em um encontro dedicado ao tema, com a participação de Marcel Bezzi, parceiro do Derick.

O caminho da “planta marombeira natural”

A motivação para buscar essas tecnologias, segundo Edson, é profundamente pragmática. Enquanto práticas como a agrofloresta são potentes, a transição em grande escala esbarra em riscos como perdas por pragas e doenças. “A gente ainda não tem a quantidade de ferramentas que o agro tem”, pontua. Os bioinsumos, associados à compostagem e ao biochar, surgem como um kit de ferramentas naturais para essa transição, garantindo segurança alimentar. “Elas em conjunto têm um grande potencial de realmente conseguir substituir todos os agrotóxicos que hoje são utilizados”, defende.

Edson usa uma analogia contundente, emprestada do Derick, para explicar o conceito: “A gente quer planta maromba, só que natural”. O segredo, mais do que a planta em si, é a vida no solo. “Olhar só para a planta na hora de produzir é o maior erro que a gente pode cometer. Essas tecnologias aí são uma prova de que se você trabalhar olhando para o solo, é só sucesso”.

O processo se dá em três etapas complementares, formando um ciclo virtuoso:

  1. Compostagem: A base, que cria um solo rico e vivo a partir de resíduos orgânicos.
  2. Bioinsumos: Os preparados com micro-organismos específicos, que atuam como “anabolizantes naturais”.
  3. Biochar: O elemento de inovação e maior valor agregado. É um material sólido e rico em carbono, semelhante ao carvão vegetal, produzido a partir da pirólise, que é o aquecimento de biomassa (como resíduos agrícolas e florestais) a altas temperaturas na ausência de oxigênio.

Biochar: a “esponja” que revoluciona a fertilidade

O biochar foi a grande novidade para muitos da rede. Trata-se de um carvão (vegetal ou mineral) ativado com bioinsumo. “Você vai fazer com que esse carvão sugue esse bioinsumo, e aí ele vai se tornar um carvão ativado”, explica Edson. No solo, ele age como uma esponja de alta durabilidade, retendo nutrientes e micro-organismos por muito mais tempo que o composto comum.

A rede de compostagem comunitária já está colocando a teoria em prática. No Terra Orgânica, o biofertilizante líquido (ou “percolado”, o nome correto que substitui o pejorativo “chorume”) produzido pelas leiras de compostagem é canalizado para uma caixa d’água. A ideia é colocar carvão dentro dessa caixa para que ele seja impregnado pelo biofertilizante, criando o biochar in situ. “Isso tem um valor de mercado. Se a gente conseguir fazer um produto de qualidade, pode ser uma porta nova que se abre”, vislumbra Edson, destacando que a matéria-prima pode ser resíduo de carvoarias, agregando valor ao que antes era desprezado.

A sinergia da Rede: conhecimento que gera riqueza

Toda essa descoberta tecnológica é, na visão do entrevistado, um fruto direto da dinâmica de redes. A missão é refletir sobre o poder dessa arquitetura colaborativa, pois basta um contato com alguém de outra rede para que novas possibilidades e interações aconteçam. O conhecimento, quando compartilhado, se potencializa e gera um valor que transcende o financeiro.

O percurso de uma simples conversa no grupo de whatsapp até uma oficina prática no Celebra Muda, evento que reúne várias iniciativas da Rede Saúva Jataí, ilustra esse fluxo. A atividade planejada, chamada “Momento Solo Vivo”, integrará manejo participativo de compostagem com crianças, coleta de micro-organismos da mata da Serra da Misericórdia e demonstração das técnicas com o Instituto Arandu.

Crescimento e os desafios da escala

O Terra Orgânica vive um momento de maturação e novos desafios. A execução de projetos maiores, como emendas parlamentares, trouxe uma complexidade burocrática (contratos, notas fiscais e prestação de contas mais detalhadas) que demanda uma profissionalização da estrutura. “A gente não é mais só uma central de compostagem comunitária do bairro”, reconhece Edson. O plano para 2026 inclui reforçar a equipe para navegar melhor nesse novo patamar, sem perder a essência colaborativa e o “flow” (fluxo) que caracteriza a rede.

A história contada na entrevista é um testemunho do poder germinativo das redes horizontais colaborativas. Ela mostra que a próxima revolução agrícola, baseada na vida do solo e livre de venenos, não está sendo gestada apenas em laboratórios isolados, mas também — e talvez principalmente — na troca viva, aberta e entusiasmada entre praticantes que ousam compartilhar descobertas e, juntos, cultivar o futuro.

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