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Como está a regeneração socioambiental após dez anos do rompimento da barragem do Fundão, em Mariana

Matéria publicada em 10 de dezembro de 2025.

Dez anos não foram suficientes para enterrar o crime. Pelo contrário. Uma década após o rompimento da barragem da Samarco (Vale/BHP) em Mariana, o Rio Doce ainda retém parte importante da lama, e as comunidades atingidas carregam um fardo invisível, porém corrosivo: o dano da dúvida. Em uma entrevista reflexiva, o sociólogo Hauley Valim, co-fundador do projeto Regenera Rio Doce e ativista da Rede Saúva Jataí, desenha um balanço que vai muito além dos números da reparação. Ele fala de uma “primeira grande gira na roda”, onde as incertezas sobre o futuro, a saúde e a justiça se tornaram, paradoxalmente, o motor para a construção de protótipos de resistência e regeneração. Em um panorama onde a ação judicial na Inglaterra esbarra em questões de soberania nacional e os programas de indenização buscam “esvaziar” a mobilização, Valim aponta para as pequenas-grandes vitórias: a transformação do conhecimento comunitário em política pública de saúde. Esta é a história de um longo prazo que está apenas começando.

Hauley Valim é sociólogo e ativista da Rede Saúva Jataí

Para Hauley Valim, qualquer balanço do ano atual está irremediavelmente atado aos dez anos que se passaram desde que a lama invadiu o distrito de Bento Rodrigues. “Estamos experimentando agora essa primeira grande gira na roda, um primeiro dimensionamento do longo prazo”, afirma. Ele não vê um ciclo se fechando, mas um marco ressonante, um ponto de inflexão onde “todos esses pequenos processos encontraram um longo prazo”.

Nessa década, um fenômeno se destacou, segundo ele, como um dos danos mais profundos e menos tangíveis: o dano da dúvida. “Desde o início… a gente tinha a dúvida: se o impacto seria grande, se ele seria perceptível”, relembra. Essa incerteza inicial sobre a proporção da tragédia se transformou, mas não desapareceu. Ela persiste no cotidiano das comunidades de forma corrosiva: “Será que pode surfar? Será que pode comer o peixe? Será que a gente vai ser indenizado? Será que o câncer vai chegar? Com quanto tempo?”.

A cada enchente do rio, argumenta Valim, o crime se “renova”, tornando a resolução ou o estancamento do dano um conceito distante. “Metade dos rejeitos ainda está na calha. Enquanto o rejeito todo não descer, esse problema vai se renovar. E a cada atualização do problema, atualizam-se também as dúvidas”.

No entanto, o ativista faz outra leitura desta condição. Para ele, a dúvida não é apenas um fardo, mas uma ferramenta de pulsão, um estímulo para a ação. “Diante da dúvida se a gente pode ou não beber água, criar um protótipo de regeneração, de captação e filtragem de água de chuva é fundamental”, exemplifica. É na falta de certezas que surgem as alternativas: arteterapia para os danos emocionais, filtros caseiros, medicina integrativa. “Os protótipos de regeneração não são baseados nas certezas, eles são baseados justamente nas dúvidas. Porque a dúvida impulsiona”.

Essa lógica da dúvida criativa também se aplica ao campo da justiça. A “instabilidade jurídica” gerada pela dimensão pioneira do crime levou a buscas por soluções em múltiplas frentes, incluindo a Ação Coletiva em Londres contra a BHP. Valim vê essa ação como um fenômeno ambíguo: ela “democratizou o acesso” à justiça já que o cadastro da Renova foi o grande corte no reconhecimento dos atingidos nas negociações com as empresas e colocou em questão a capacidade da justiça brasileira dar conta deste desafio.

Agora, no décimo ano, um novo movimento entra em cena: o esvaziamento deliberado dessa ação internacional. O Programa de Indenização Definitiva (PIDE), que oferece reparações de baixo valor com facilitação documental, exigia como contrapartida a desistência da ação na Inglaterra. “Essa facilitação teve como objetivo esvaziar a ação de Londres”, analisa Valim. O cenário jurídico se torna ainda mais complexo quando uma eventual decisão favorável no exterior encontra barreiras no Brasil.

“Existe agora aí uma outra grande briga política e jurídica para poder fazer com que uma decisão em outro país tenha validade legal dentro do Brasil”, pondera, destacando o conflito entre um marco jurídico internacional e uma “política de Estado” resultante de uma repactuação interna entre empresas, governos e justiça.

As conquistas das “pernas curtas”

Em meio a essas batalhas macro, o trabalho do Regenera Rio Doce se manteve com recursos ínfimos com períodos de absoluta escassez. Ainda assim, Valim enumera conquistas qualitativas que considera superarem o investimento aportado. A principal delas é a transformação do conhecimento comunitário em política pública de saúde em nível municipal.

Através de mobilização popular, conseguiram incluir no sistema público as Práticas Integrativas e Complementares (PICS), com reconhecimento da medicina ayurvédica para casos de contaminação por metais pesados – algo que a medicina alopática muitas vezes ignora. Além disso, garantiram previsão orçamentária para educação popular e vigilância em saúde. O mecanismo de controle social foi estabelecido: uma cadeira no Conselho Municipal de Saúde, com poder deliberativo e fiscalizador para aprovar ou não a execução do plano e a prestação de contas.

“Esse mecanismo serviu também para poder despertar os interesses das organizações dos atingidos, para poder ocupar também os outros conselhos”, explica. “A gente tem um protótipo de regeneração a partir desse processo de mobilização comunitária, de ocupação do Conselho e de controle social”.

O futuro é organizar o passado para semear o futuro

Projetando-se para o próximo ano, o ativista revela um desejo que vai além da luta cotidiana: a necessidade de sistematização. Ele carrega um “acúmulo gigantesco” de uma década: arquivos, entrevistas, fotos, projetos inacabados. “Um ano, no mínimo. É um ano de organização”, estima. Seu sonho é “democratizar o acesso a esses saberes”, transformando os aprendizados vividos em artigos científicos, protótipos aprimorados e conhecimento acessível.

Há também a crença em um caminho de cura concreto, ainda por ser explorado: “Eu acredito que a quintessência de aroeira é o medicamento que vai nos ajudar em grande escala. Eu não consegui, esse ano, colocar a mão nela”.

Enquanto a justiça formal navega por mares turbulentos entre tribunais nacionais e estrangeiros, e as dúvidas sobre o rio e a saúde permanecem, o trabalho de Hauley Valim e do Regenera Rio Doce aponta para um outro tipo de reparação, continua e radical: aquela que nasce da própria comunidade, da dúvida transformada em ação, e que insiste em brotar mesmo no solo mais contaminado. A primeira grande gira na roda completou-se. Mas a lama ainda corre, e a roda, movida pela força dos que resistem, continua seu giro lento e firme.

Siga o Hauley Valim no Instagram: https://www.instagram.com/hauley.valim/

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