Topo

Nhemongarai e Mutuan fecham o ano com esperança de um futuro mais ancestral e mais acolhimento e força do feminino

Matéria publicada em 3 de dezembro de 2025.

Um filme que se transformou em movimento de resgate cultural indígena e um coletivo que virou força política e de acolhimento. O ano de 2025 foi de consolidação e impactos positivos para a ativista Débora Saraiva em Paraty e na região. O projeto Nhemongarai, que levou um filme documentário sobre ritual Guarani Mbya para as aldeias, não só exibiu imagens, mas reacendeu debates e despertou nos jovens o desejo de não deixar sua cultura se apagar. Paralelamente, a Mutuan, coletiva de mulheres de Paraty, ampliou seu alcance para 126 integrantes em sua rede, conquistou espaço no Conselho Municipal dos Direitos da Mulher e se firmou como um grupo de acolhimento, formação e pressão por políticas públicas. Em um balanço para o Portal Saúva Jataí, Débora revela como a cultura é capaz de gerar transformações profundas e reais.

Debora Saraiva é uma das ativistas da Saúva

Débora Saraiva é uma das diretoras do documentário Nhemongarai, junto de Kasia Mich, e idealizadora da Coletiva de Mulheres Mutuan. Esses projetos unem cultura, ancestralidade e empoderamento feminino, e, segundo ela, superaram expectativas e mostraram que os maiores recursos para a transformação são as pessoas e a própria comunidade.

O filme que despertou aldeias

A circulação do filme Nhemongarai pelas aldeias da região teve um efeito dominó. O que começou como uma exibição cinematográfica rapidamente se tornou catalisador de encontros de jovens, debates e reflexões. “O impacto foi muito maior do que nós esperávamos”, confessa Débora. “Não foi só um filme levado para as aldeias. Através dele, a gente pôde incentivar a realização de encontros entre as aldeias da região.”

O documentário, um registro histórico do ritual de batismo do milho produzido pela Visiones Filmes, cumpriu um papel crucial: o de trazer debate e reflexão sobre um possível apagamento do ritual. “Foi o que ele mais provocou”, explica a co-diretora. “A reação foi: ‘E aí? Agora está acabando? Não pode ter um apagamento, os jovens precisam tomar conta’.” Débora relata a dificuldade de se manter os rituais e de incentivar a presença e interesse dos jovens.

Nhemongarai é o ritual Guarani Mbya de batismo do milho

Com a missão principal cumprida, o projeto agora entra em uma nova fase: a da autogestão. “O filme é deles. A ideia agora é deixá-los com o filme”, afirma Débora, citando a liderança Ivanildes da aldeia Yakâ Porã como embaixadora da obra. “Ivanildes é uma grande liderança, reconstruiu a casa de reza da sua aldeia, desenvolve um trabalho com os jovens e mulheres, seu apoio e articulação foram fundamentais para a realização dos encontros. Esse projeto só foi possível por que formamos uma equipe muito profissional e comprometida, nosso pajé e educador Marley Vera Tupã, a antropóloga Anna Maria Andrade, as meninas da produtora Caiçara, Samara Donário, Mauriceia Pimenta, Karina Braz, Sabrina Furno, Luciana Serra e a fotógrafa Bianca Lucio do Quilombo do Campinho. Também contamos com a produção nas aldeias, envolvendo produtores, cozinheiras e Coral”, explica Débora. O objetivo maior é que o Nhemongarai inspire os Guarani a contarem suas próprias histórias. “É muito importante que os povos tradicionais falem de si mesmos, sem interlocução.”

A força política das mulheres

Se nas aldeias o trabalho foi de reavivar tradições, com a Mutuan, em Paraty, o ano foi de fortalecimento institucional e avanço político. O coletivo, que hoje conta com uma rede de 126 mulheres, deu passos importantes na articulação de poder para transformar o acolhimento em política pública.

“A Mutuan hoje está conseguindo acolher todo mundo que está chegando. Ninguém fica de fora”, diz Débora. Mas o destaque vai para as conquistas políticas:  a reativação do Conselho Municipal dos Direitos da Mulher, onde o coletivo agora tem uma cadeira.

A estrutura do grupo também se profissionalizou. Com núcleos de percussão, corpo de baile, canto e artes cênicas, a Mutuan agora conta com uma equipe de diretoras e professoras, como Débora Saraiva, Lara Gomes, Natália Gularte e Roberta Valente (percussão), Cláudia Ribeiro (artes cênicas) e Carol Dávila (canto), Gabriela Marques (corpo de baile), além do batalhão de mulheres que compõe a força e a resistência da coletiva. O grupo caminha a passos firmes, buscando consolidar-se como um núcleo de formação e acolhimento para mulheres.

O espetáculo “Agô às Yabas”, um Xirê (roda) musical em homenagem às Orixás femininas, foi o grande trabalho artístico do ano, realizado com autonomia. Agora, os olhos se voltam para as celebrações de Iemanjá e o Carnaval, que abrem o calendário de 2026.

Planos para o próximo ano

O legado de 2025 é de empoderamento. Para o Nhemongarai, a meta é que as aldeias guaranis usem o filme como ferramenta própria, levando-o a festivais e mostrando que sua cultura está viva. Para a Mutuan, o foco é a continuidade do trabalho e a busca por sustentabilidade, inclusive através de uma nova parceria com o Instituto Brincante e a Casa João de Barro para a escrita de editais.

“Grupo de cultura é sustentabilidade, é continuidade. Não vai entrar um valor que resolve tudo pelo resto da vida. O importante é a continuidade das ações, cocriar outras formas para alcançar essa independência”, reflete Débora. “É um trabalho constante de renovação, formação, aprendizados e luta. Então é isso, vamos ampliar as nossas formas de fomento… pra que a gente possa atingir mais e mais mulheres, principalmente as mulheres que têm menos acesso à cultura.”

A mensagem final do balanço do ano é de resistência e ação. Seja com o filme nas aldeias ou com os tambores nas ruas de Paraty, o trabalho de Débora e suas companheiras prova que a cultura, quando enraizada na comunidade, é a mais poderosa ferramenta para escrever o futuro.

Siga a Mutuan no Instagram: https://www.instagram.com/mutuan_/

Compartilhar: