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A reconstrução de comunidades através da compostagem e da economia solidária

Matéria publicada em 26 de novembro de 2025.

“Salve, pessoal, saudações compostáveis!” Foi com esse cumprimento característico que Gustavo Lanza, do Laboratório Terra Orgânica, deu início ao 8°Encontro de Formação em Compostagem Comunitária que reuniu iniciativas de quatro estados brasileiros. O encontro online no dia 30 de outubro de 2025 reuniu a Associação Laboratório Terra Orgânica, em parceria com a rede Saúva Jataí, e Cíntia Mendonça, Mestra em Políticas Públicas e Agente Territorial da Economia Solidária. A conversa promoveu um diálogo profundo sobre os elos entre compostagem comunitária, agroecologia e economia solidária. O tema central revela a ambição do movimento: para além de transformar resíduos em adubo, trata-se de semear novas relações sociais através do trabalho em rede, do engajamento comunitário e da reconexão com o território. A conversa, mediada por Gustavo, revelou a experiência desses coletivos nessa construção e os frutos que já estão sendo colhidos.

A Compostagem como portal para a autogestão

O que começa como uma solução para o lixo orgânico rapidamente se revela uma poderosa ferramenta de transformação social. Gustavo Lanza explica que a compostagem comunitária é a porta de entrada para um processo muito mais profundo: “O quanto a gente sempre chega nos territórios procurando trazer envolvimento social, a responsabilidade compartilhada. Todo mundo tem responsabilidade sobre o seu resíduo, então vamos cuidar dele junto”.

Esse “cuidar junto” vai além da gestão de resíduos. O composto vira horta, a horta vira alimento, e todo o processo vira uma escola prática de colaboração. “Isso faz renascer uma chama, dá um quentinho no coração poder participar de coletivos e construir coisas do mundo”, reflete Gustavo, destacando como a prática resgata valores ancestrais de trabalho coletivo.

Economia Solidária e a teia que conecta territórios

Cíntia Mendonça é idelizadora e uma das fundadoras das Comunidades Agroecológicas do Bem Viver, e traz a perspectiva econômica que completa o ciclo. “A economia solidária coloca a vida no centro e não o lucro no centro”, define. Ela apresenta esse modelo de economia que já envolve mais de 20 mil empreendimentos no Brasil, organizados em cooperativas, associações e redes de comércio justo.

O segredo, segundo Cíntia, está em repensar toda a cadeia: “É a gente repensar as relações da produção, da comercialização e do consumo”. Ao invés de depender dos grandes conglomerados, as comunidades estão construindo circuitos curtos em que se “produz, comercializa e o consumidor também é um consumidor consciente que vai procurar apoiar esses pequenos empreendimentos”.

Mutirões que tecem a aliança entre campo e cidade

A teoria ganha vida concreta na experiência das Comunidades Agroecológicas em Santa Catarina. Quatro territórios distintos da região da Grande Florianópolis – o Guarakã, a Casa de Passagem Indígena e Ponto de Cultura Goj Ta Sá, a aldeia guarani Tava’í e o território do Laboratório Terra Orgânica – formaram uma aliança baseada em mutirões mensais.

“Quando tem um mutirão, combinado, estratégico, grande, naquele território, daí sempre vem pessoas, lideranças, representantes”, descreve Cíntia com entusiasmo. “É lindo, porque o mutirão é inspirado em práticas indígenas… esse desprendimento de você plantar a terra, de um espaço que não é você que vai depois colher, mas também, ao mesmo tempo, depois todo aquele grupo vai lá onde você mora, planta e colhe, e a gente vê que a abundância gera para todo mundo”.

Exemplos inspiradores locais e globais

Cíntia cita experiências emblemáticas que mostram a força das redes colaborativas. As “comunas da Venezuela”, que já somam 90% do território venezuelano, organizam cooperativas produtivas voltadas às demandas locais, com excedentes comercializados diretamente entre produtores e consumidores. Já o “Paz Nordeste” articula nove estados em torno da produção e consumo de alimentos saudáveis, fortalecendo a governança participativa e o cooperativismo.

Mais próximo da realidade local, a “Brotô Agroecologia” surge como resposta ao maior desafio dos empreendimentos solidários: a comercialização. A associação ajuda na logística para escoar alimentos excedentes agroecológicos desses territórios, conectando produção e consumo.

O desafio da transição

O desafio de criar algo novo e ancorado em valores altruístas e solidários, não é um caminho fácil. Como questionou uma participante, mesmo na agroecologia ainda se reproduzem por vezes relações neoliberais. Cíntia reconhece o desafio: “A gente herda muitos princípios e valores da escola, da educação que a gente teve.(…) Isso está dentro de todo mundo”.

A resposta está na formação constante e no processo de “territorialização” – o mergulho profundo na vida comunitária. “É uma dificuldade, né, gente? Não é fácil. Nada de ser fácil. A gente tá indo construir um modelo que não é o hegemônico, mas eu acredito que é possível. É uma utopia que deve ser construída no nosso dia a dia”.

O sonho coletivo que já é realidade

O que emerge dessas experiências é a prova concreta de que outro mundo não só é possível como já está sendo construído. Da compostagem que une vizinhos às redes de comercialização que fortalecem agricultores, das alianças entre campo e cidade aos mutirões que celebram a abundância compartilhada – cada iniciativa é um fio na teia de uma sociedade mais justa e sustentável.

Como sintetiza Cíntia: “A economia solidária é melhor para todo mundo, para todas as relações sociais, para a nossa relação com a natureza. É integrar, pertencer e se apoiar. É estar solidariamente gente junto, e junto a gente é mais forte”.

A mudança, afinal, não vem com gritos de guerra, mas com o silencioso e persistente trabalho de transformar resíduos em vida e projetos individuais em coletivos – um mutirão de cada vez, um território de cada vez. Essa é a essência do trabalho em rede e do engajamento comunitário: a construção de uma solidariedade ativa e prática, onde o sucesso de um é o sucesso de todos, e o cuidado com a terra é o cuidado com a comunidade. A compostagem, nesse contexto, deixa de ser apenas uma solução para os resíduos e se revela como uma ferramenta poderosa para adubar o solo de novas relações sociais, mais justas, colaborativas e enraizadas no território.

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