Matéria publicada em 21 de outubro de 2025.
Uma formação de educadores transformou as ruas, vielas e áreas de preservação da Serra da Misericórdia, no Complexo da Penha, Zona Norte do Rio, em uma grande sala de aula a céu aberto. A iniciativa, idealizada pelo CEM – Centro de Integração da Serra da Misericórdia, usou a metodologia do “corpo-território” para conectar os participantes à realidade local a partir de suas fragilidades e potências, com a agroecologia como fio condutor.
O 1° Ciclo de Formação de Educadoras (es) da Escola Popular de Agroecologia, realizada no dia 26 de setembro, consistiu em um passeio a pé e de moto guiada por pontos estratégicos do território, conduzida por Wilson, ‘cria’ do Complexo da Penha que possui a agência de turismo de base comunitária Afroturismo. O roteiro incluiu o SAF (Sistema Agroflorestal) do CEM, uma pedreira em atividade – causadora de impactos socioambientais –, uma quadra em construção para as crianças, a Igreja da Penha e o Parque Ary Barroso. Nesta matéria, entrevistamos Ana Carolina Milanez, a Ana Terra, educadora do CEM.

A potência que pulsa no território
A ideia central, como explicou Ana Santos, gestora do CEM, era que as educadoras e educadores “conhecessem o território que as crianças atuam a partir das fragilidades e potências e a agroecologia que pulsa”. O percurso foi desenhado para evidenciar essa complexidade.
“Lá, se você cava, jorra água. E aí, olha o quanto é complexo. Porque, ao mesmo tempo que você tem água, você não tem. Porque as pessoas sofrem de acesso à água lá”, relatou Ana Terra, destacando uma das contradições mais marcantes vivenciadas no passeio. A presença de nascentes preservadas na casa de moradores, como a da liderança indígena Leioldes, contrasta com a falta crônica de água encanada para muitas famílias.


A pedreira, ainda ativa, foi outro ponto de forte impacto. “Tem o pó da pedreira, que a Ana Santos comenta que provoca muito problema de respiração. Você vê a Ana, ela não consegue andar muito, porque a respiração fica prejudicada por causa da pedreira”, contou Ana Terra.
Desestigmatizando a favela e contracolonizando o olhar
O passeio intencionalmente fugiu dos estigmas associados às favelas. Em nenhum momento, a criminalidade ou a violência foram o foco. A proposta era iluminar a riqueza cultural, histórica e ambiental muitas vezes invisibilizada.
“O foco estava naquilo que não é mostrado, mas que está no dia a dia”, afirmou Ana Terra. Wilson, o guia, ressaltou a história indígena do local, apontando ruas que ainda carregam nomes de origem indígena. A fala da educadora Rose, que é nordestina, ecoou como um símbolo de resistência: “a gente já chega plantando, a gente não chega morando”. Perguntada sobre como foram conduzidos os passeios e a diversidade de olhares sobre a favela, Ana Terra respondeu que a percepção de cada um é bem diferente porque vêm de realidades distintas.


“Minha família vem de um território de favela. Mas no interior de São Paulo é totalmente diferente do que eu vejo aqui no Rio de Janeiro. Acho que é essa análise também, né? Ao mesmo tempo que você vê os mesmos atravessamentos que tem de onde você vem, também tem outros que você não via. Acho que uma pessoa que já vem de uma realidade que não veio da favela ou do subúrbio já vai ver de uma outra forma”.
Ana Terra – CEM Centro de Integração da Serra da Misericórdia
Ana Terra reforça que um dos objetivos da formação, para além da realidade de falta de acesso aos direitos básicos e violência da favela, é de enxergar que também existem pontos positivos dentro da favela, mas que as pessoas não enxergam. Ela afirma que a visibilidade da favela é focada no lado negativo.
“Tem muito das pessoas também se abrirem mais para ouvir quem está vivendo a realidade. E eu acho que a formação traz isso, porque, a partir do momento que está todo mundo ali, dá para falar também de outro lugar, sabe? Desse protagonismo ser de quem está. A Ana Santos vem e traz essa visão dela, do SAF, da agrofloresta, a Leioldes traz essa visão dela enquanto uma mulher periférica, indígena, a Rose, que também é do território, trouxe muito essa questão cultural do Nordeste”.
Ana Terra – Centro de Integração da Serra da Misericórdia
A formação também destacou a sobreposição de unidades de conservação – como a APA APARU (Área de Recuperação Ambiental e Recuperação Urbana) da Serra da Misericórdia e a área de proteção ambiental da Igreja da Penha – com a realidade favelada, mostrando a tensão entre a preservação do meio ambiente e a ausência de políticas públicas efetivas.


“Se a gente pensar em questão de suporte, de fortalecimento mesmo, não chega. As políticas públicas não chegam num lugar que tenta preservar tanta natureza”, questiona Ana Terra.
Teatro, agrofloresta e realidade social através do “Olhar que clareia”
Em um relato carregado de emoção e profundidade, a artista e educadora Helena Stewart, de 49 anos, descreve o primeiro Encontro de Formação de Educadores do CEM como uma experiência transformadora de “reaprender a olhar”. Mãe de Cecília e Cauã e responsável pelas aulas de teatro na escola popular do Centro de Integração da Serra da Misericórdia, Helena vê a arte como uma ferramenta vital de educação e transformação, uma “força anímica” de alegria e cooperação em tempos de valores invertidos. A visita à comunidade da Terra Prometida, no complexo da Penha, foi uma verdadeira aula de geografia, história e política, revelando as muitas camadas de uma luta por existência: das histórias de resistência das moradoras às hortas agroflorestais e à ausência do Estado.

O percurso, que partiu do chão de terra batida da comunidade, passou pela paisagem distópica de uma pedreira e culminou na Igreja da Penha com um pôr do sol sobre a cidade, evidenciou as contradições e os abismos sociais de uma “cidade dentro da cidade”. Para Helena, que pôde compartilhar a vivência com seus filhos, o dia intenso e marcante na Arena Dicró, finalizado com o samba e a energia do Passinho, reforçou a beleza da conquista da autonomia. “Agradeço e confio que esse reaprender a olhar é matéria viva para os dias atuais. Desejo contribuir e compartilhar um pouco da minha experiência, me achegar, ganhar intimidade com as crianças e com o espaço, circular e facilitar a circulação pela cidade”, diz Helena.
Multiplicação dos saberes e próximos passos
A atividade reuniu cerca de 20 pessoas, incluindo educadoras do CEM, universitários de um projeto de apoio e moradores. O objetivo é que essa experiência se reverta em aulas mais contextualizadas e antirracistas para as crianças atendidas pelo centro.
“Eu acho que é uma mudança até primeiro do indivíduo que vai para o coletivo”, refletiu Ana Terra. “A formação torna a gente sujeito político, pensa diferente algumas coisas”.


A proposta é dar continuidade ao ciclo com um segundo momento de formação, uma roda de conversa com especialistas em educação contracolonial, e, posteriormente, replicar a vivência com as crianças da comunidade. “A ideia é passar por todos esses pontos também fazendo essa vivência com as crianças. Para elas também verem o território de uma outra forma”, adiantou Ana Terra.
A iniciativa do CEM reforça que a favela é um território de potências, e que a verdadeira educação começa no reconhecimento e na valorização dos saberes e da história de quem vive e constrói esse espaço todos os dias.
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