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Jornada da Mata forma jovens líderes ambientais em cinco territórios do Rio de Janeiro

Matéria publicada em 7 de outubro de 2025.

No Centro de Tradições, convivendo com micos estrela e quatis no meio da mata de Santa Teresa, um grupo de jovens conduz um Ciclo de Estudos sobre consciência corporal, plantio orgânico e compostagem comunitária. Eles são os novos educadores da Jornada da Mata, iniciativa de educação socioambiental que vive em 2025 um ano de transformação profunda. O que começou com encontros mensais se expandiu para uma atuação semanal e descentralizada em cinco territórios da cidade, colocando na prática os conceitos de autogestão e protagonismo juvenil.

Luna Pesce, gestora do Jornada da Mata, relata com satisfação o movimento recente. “Esse ano foi de crescimento exponencial. Para além das atividades programadas, abraçamos a oportunidade de participar como coletivo de uma residência promovida pelo Instituto Goethe Brasil, chamada ‘Cidade Floresta’ e Viradão Cultural da Rocinha, o que trouxe muitas inspirações para o grupo e novos parceiros”, afirma. Enquanto a composteira do Centro de Tradições Ylê Asè Egi Omim, um dos pontos de cultura onde o projeto acontece, vai transformando resíduos orgânicos em composto, ela explica outras transformações qualitativas que vieram com a autonomia. Os “mobilizadores” – jovens que se formaram na jornada em 2023 e 2024 – agora assumiram a frente de cursos e ciclos de estudos. “Eles se jogaram mesmo para pegar uma responsabilidade grande”, diz Luna.

A expansão para territórios como Campo Grande e o centro da cidade, próximo à Central do Brasil, ampliou ainda mais a área de atuação da Jornada. “A gente acabou se multiplicando muito”, reconhece Luna. A solução encontrada no segundo semestre foi reduzir a carga de atividades extras para criar mais momentos de conexão entre o coletivo e, o mais importante, incentivar a troca física entre os territórios. “Agora estamos em um momento de troca de experiências, onde um mobilizador vai ministrar aulas em um território diferente do que está atuando durante o ano”.

O Ciclo de Estudos “Saberes da Terra” é um dos pilares desse movimento. Realizado no Ponto de Cultura Escritório da Mata, em Santa Teresa, e no projeto habitacional Mãe Bernadette, no centro, ele alterna entre atividades que abordam o uso de plantas no auto cuidado, de compostagem comunitária e práticas de consciência corporal, estas últimas conduzidas pela educadora e multiplicadora Nane Vieitas. “É um momento de respirar, nos conectar com nossa essência, que é a natureza, e entender que não somos só um cérebro”, descreve Luna, que relata sair das atividades sempre “muito melhor”.

Diálogos entre corpo e natureza

Os encontros mensais “Corpo Natureza e Compostagem Comunitária” são descritos por Nane Vieitas como uma experiência preciosa e contínua para desenvolver uma “política do encontro” (metodologia aprendida junto ao núcleo UFRJ), com o objetivo de agregar cada vez mais pessoas. Ela destaca como prova desse sucesso o caso de uma participante que se desloca mensalmente de Madureira (Zona Norte) até Santa Teresa, motivada para participar dos encontros. Nane enfatiza que as duas dinâmicas se complementam perfeitamente: ”O que é muito legal é ver esse processo da transformação dos resíduos, de tudo que a gente coloca ali na terra, devolve para a terra e depois utiliza essa matéria para poder plantar. (…) Da gente entender que nosso corpo é natureza. E entender ele, na prática da compostagem, que o que devolvemos para a natureza depois volta para o nosso corpo em forma de cuidado da terra”. Como educadora e multiplicadora de conhecimentos, ela ressalta a satisfação de poder compartilhar e expandir esses saberes acumulados. “Plantar com essa matéria orgânica que fica pronta, usamos no plantio da horta e futuramente vamos colher”, sintetiza.

Nane Vieitas

Autonomia e responsabilidade

O ápice desse processo de empoderamento veio quando os “germinadores” – participantes em formação – deixaram seu papel de monitores e assumiram uma aula inteira. “Na última aula do ciclo de estudos, duas germinadoras organizaram toda a aula e a conduziram. O Müller Portella (mobilizador) que ficou no apoio. Nesse dia, eu também nem consegui estar junto”, conta a coordenadora, sinalizando um degrau crucial de autonomia alcançado.

Sinergias na rede

A força da Jornada da Mata se revela também na sua capacidade de tecer redes. Após o Encontro Presencial 2025 da Rede Saúva Jataí, integrantes do Mutirão Agroflorestal e Jornada da Mata reuniram iniciativas como Jardim do Beija-flor, Compostagem Terra Orgânica e participantes da residência Cidade Floresta no Escritório da Mata, resultando em podas, canteiros novos e o plantio de sementes recebidas no encontro.

O Mutirão pós Encontro Presencial veio carregado de motivação de trabalhos em rede

Outra parceria de sucesso levou o espetáculo “Rosa e a Semente”, do Grupo Pedras de Teatro, para 400 crianças da Escola Municipal Paula Brito, na Rocinha, um dos locais onde acontece a “Jornadinha da Mata”. “Não é toda hora que chega o teatro na escola pública”, celebra Luna, mesmo destacando as barreiras burocráticas que ainda dificultam a continuidade de projetos externos no ambiente escolar.

O espetáculo “Rosa e a Semente”, do Grupo Pedras de Teatro, já se apresentou em várias iniciativas da Rede Saúva Jataí

Desafios para a continuidade e expansão do projeto

A palavra de ordem é amadurecimento, mas não sem seus percalços. O balanço de 2025 é de um crescimento vigoroso que precisa ser consolidado. O projeto provou sua capacidade de formar e empoderar jovens como educadores socioambientais em múltiplas frentes. O próximo passo, essencial para a perenidade do Jornada, é transformar a energia da experimentação em uma estrutura mais sólida, capaz de atrair investimentos e garantir que os frutos desse amadurecimento continuem a florescer nos territórios. O principal desafio, no entanto, é concreto: os recursos financeiros. As bolsas oferecidas aos jovens são simbólicas e limitam a dedicação que podem ter além das atividades essenciais. “Dentro do que a gente tem de recurso, a gente está muito bem, muito próspero”, pondera Luna, mas o objetivo é ampliar as possibilidades. A estratégia para 2025 inclui a formalização dos participantes (com a abertura de MEIs) e um trabalho coletivo de captação de recursos. “Agora é o momento de pegar esses conhecimentos e sentar junto para escrever projetos”, planeja.

Luna Pesce (esq) e a nova geração da Jornada da Mata

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