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Solo da Cana chega à Europa com a coragem de ser ao mesmo tempo manifesto e conexão internacional

Matéria publicada em 24 de setembro de 2025.

O que uma cana tem para nos dizer? E o que uma cana tem para dizer aos nossos colonizadores? Isso é o que a equipe do espetáculo “Solo da Cana” pretende vivenciar com a turnê internacional em Portugal e na França. A turnê nasceu de uma convergência de propósitos. Aproveitando o Ano do Brasil na França, o projeto ganhou corpo quando encontrou na Jataí Investimentos – iniciativa que compartilha seus valores – o apoio para esta ousada semeadura. Solo da Cana se apresentará em Porto (26 e 27/09), em Lisboa (30/09 a 03/10) e finalmente em Paris (15 a 17/10), numa iniciativa que transforma palco em trincheira e arte em manifesto político. Mais do que uma simples temporada no exterior, a viagem representa o coroamento de dois anos de trabalho contínuo – verdadeiro feito no cenário cultural brasileiro – e uma ousada aposta na capacidade da arte de abrir portas para novas conversas sobre o Brasil no mundo.

Gênese de uma turnê ousada

A gênese desta jornada internacional nasceu do encontro entre oportunidade e propósito. “Começou com uma conversa, ainda no ano passado, entre a equipe do Solo da Cana inspirada no ano do Brasil na França”, relembra Izabel. A conversa evoluiu quando Leandro Almeida, gestor da Saúva e da Jataí Investimentos, identificou na turnê a possibilidade de trabalhar no exterior os valores compartilhados pela Saúva – que apoia o projeto desde seu início. “Ele achou que essa seria uma boa porta de entrada para acionar possíveis clientes no exterior”, explica a artista.

As reflexões geradas a partir desse espetáculo estimularam a Jataí a formalizar seu primeiro patrocínio como gestora de investimentos. Segundo Leandro, os propósitos que norteiam a Jataí a fazem buscar ações mais abrangentes nesse mundo de busca de regeneração das ações sociais, econômicas e ambientais. “Não podemos mais fragmentar as nossas práticas, ter um olhar menos abrangente sobre o que fazemos, gerando com isso o que no mundo da economia se chama de externalidades” diz Leandro Almeida. Num mundo onde, por exemplo, os médicos americanos são remunerados por receitarem medicamentos, ou um mercado europeu com inúmeras ações alimentares sustentáveis, ou como se diz naquele mercado , de criação de muitos produtos Bio, mas que ainda acolhem inúmeras práticas das indústrias de cigarro(*), são claras as demonstrações  que, ao olhar somente alguns aspectos das nossas ações, serão criadas e continuarão sendo criadas inúmeras externalidades que definem o rumo das condições de vida em sociedade, hoje em dia.

Por esses motivos, a Jataí se sentiu movida a desenvolver fundos de investimentos que tenham como foco de investimento iniciativas e projetos que atendam às práticas regenerativas mais abrangentes, algo que é chamado de investir na Economia do Ciclo Espiral. Nesse momento, a Jataí está lançando dois fundos originais, um voltado para investimentos na economia verde, em agroecologia e regeneração da terra, e outro voltado para investimentos na economia azul. “Ter a oportunidade de conversar com investidores sobre esses novos fundos, enquanto os convidamos a assistir ao Solo da Cana, nos pareceu uma conexão perfeita”, pontua Leandro.

O plano original, porém, se expandiu organicamente. “A possibilidade que já estudávamos de ir para a França se alargou por conta de demandas da própria Jataí e de seus contatos no exterior”, detalha Izabel. O projeto chegou a contemplar uma turnê ainda mais abrangente, mas “por conta de custos e não poucas dificuldades de produção”, consolidou-se em três cidades europeias.

Estratégia dupla: arte e negócios

A turnê opera em uma estratégia dupla singular. Enquanto Izabel e sua equipe compacta – formada pelo diretor e iluminador João Saldanha e pelas produtoras Ana Paula Abreu e Renata Blasi – concentram-se nas apresentações artísticas, Leandro acompanhará parte da turnê para articular conversas com potenciais parceiros para as instituições de fomento e investimento.

Izabel revela o caráter inovador desta parceria cheia de valores em comum e, paralelamente, está mobilizando sua rede de contatos ligados ao movimento ambiental e universidades, especialmente em Paris onde estudou, para promover debates na Sorbonne e Paris 8.

Leandro Almeida
Izabel Stewart

Desafios da transposição cultural

A adaptação do espetáculo para públicos europeus demandou um meticuloso trabalho de tradução cultural. Para Paris, a solução encontrada foi um delicado equilíbrio linguístico. Izabel traduziu integralmente o texto com a colaboração da tradutora Marisa Guaranis, para depois, em conjunto com o diretor João, definirem o que manter em português e o que representar em francês.

O critério foi tanto poético quanto político: as falas onde a Cana se dirige diretamente ao público serão em francês; já os momentos de interioridade, onde dialoga consigo mesma ou com a Mãe Terra, permanecem em português. Legendas acompanharão toda a apresentação, criando um jogo de camadas linguísticas.

As particularidades da cultura brasileira apresentam desafios específicos. “A paisagem dessa commodity (cana-de-açúcar) é muito familiar para nós brasileiros, e não é tão familiar para os nossos colonizadores, incrivelmente”, observa Izabel. Para sanar esta lacuna, a equipe preparou uma pequena contextualização antes de começar a peça que será recitado no escuro antes de cada apresentação, “para colocar o público na mesma página”.”Paris é um lugar que está habituado a receber ações de todos os lugares do mundo. É um lugar muito cosmopolita”, pondera Izabel, confiante na capacidade do público de transpor essas barreiras culturais.

O livro: texto que ganha autonomia

A turnê também será palco para o lançamento internacional do livro “Solo da Cana”, que Izabel levará consigo. A publicação representa um “filho de papel” que ganha autonomia em relação ao corpo da artista. “Todo o esforço foi de que o texto dessa peça tivesse uma autonomia, que ele pudesse existir como texto, fora da encenação. Então, que a pessoa que entrasse em contato com esse texto pudesse entender e criar uma relação com ele, independente de ter visto ou não a peça”, explica.

O livro foi publicada pela Numa Editora

A motivação veio de um fenômeno incomum nos dias de atenção dispersa: “Pessoas que foram assistir à peça muitas vezes, porque queriam ouvir de novo, porque queriam anotar coisas e que me pediram esse texto. ‘Eu queria ouvir de novo, eu queria anotar coisas, eu queria esse texto’. Isso me sensibilizou profundamente no sentido de que se existia esse interesse, eu deveria publicar o texto”. O livro inclui um posfácio que situa o trabalho na trajetória da artista, acrescentando camadas de significado à obra.

“Que esse texto possa existir sem a prerrogativa da pessoa ter visto a peça, que ela consiga interagir com esse texto por ele mesmo. Que ele tenha existência por si próprio e isso realmente tem esse efeito em que ele fica, mas ele fica sem mim”.

Izabel de Barros Stewart – Solo da Cana

Manifesto aos colonizadores

Por trás da nervosa expectativa da primeira turnê internacional do espetáculo, há uma potente motivação de política ambiental e cultural. “Uma coisa que me instiga é levar esse trabalho para o dito ‘velho mundo’. Falar para os colonizadores”, compartilha Izabel. “Levar essa paisagem para as terras dos colonizadores, para a velha metrópole, é uma coisa que me move. E aí, o que isso vai dar?”, indaga.

A artista vê o espetáculo como “uma espécie de manifesto” que devolve à Europa o legado de sua herança colonial, transformado em arte e crítica social. Esta perspectiva alimenta-se da felicidade de encontrar sintonia com parceiros que compartilham seus valores. “Como é um texto muito autoral, sobre as minhas convicções, eu fico muito feliz que elas sintonizem com as convicções de outras pessoas. Sobretudo de outras pessoas que estão na Rede, em especial com os interesses da própria Saúva e da própria Jataí, que isso esteja tudo sintonizado”, se alegra destacando a raridade de alinhamentos tão orgânicos entre arte e patrocínio.

“Poder caminhar ao lado de parceiros que também querem ver esses assuntos reverberarem, é uma felicidade muito grande. E entrar em contato mesmo, em atrito com o público, no sentido positivo da coisa, porque eu acho que é um lugar realmente de manejo, de compostagem de afetos. É disso que se trata o universo da arte. Como é que a gente vai tratar de práticas sensíveis, que podem estar relacionadas a temas diversos? No meu caso, tem uma pauta política bem clara, que toca aspectos socioambientais”.

Izabel de Barros Stewart – Solo da Cana

A aposta de um novo modelo

No cerne desta turnê histórica está uma aposta ousada em um novo modelo de fazer cultura e negócios simultaneamente. Como sintetiza Izabel: “Se você também tem afinidade com esses valores, pode acreditar que nós estamos encampando isso. Chega perto da gente porque é nisso que a gente está apostando”.

O Solo da Cana chega à Europa como um espetáculo que é um experimento corajoso de como a arte pode ser tanto manifestação cultural quanto estratégia de conexão internacional, tanto denúncia política quanto proposta de novos diálogos entre Brasil e mundo. A cana-de-açúcar, reconhecida commodity de exportação, transforma-se em veículo de ideias que questionam justamente o modelo que ela mesma simboliza.

(*) How not to die, Michael Greger, MD, 2018, Pan Macmillan, London.

Siga o Solo da Cana no Instagram: https://www.instagram.com/solodacana/

Acesse a Jataí Investimentos : https://jatai-investimentos.com/

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