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Como a Compostagem Terra Orgânica plantou sementes de transformação e deu origem a uma Rede de Agroecologia e Cultura Ancestral em Florianópolis

Matéria publicada em 18 de setembro de 2025.

A história que começa com restos de comida, palha, serragem e leiras de compostagem culmina hoje em uma rede de transformação socioambiental em Florianópolis. O Laboratório Terra Orgânica surgiu como uma iniciativa focada em desviar resíduos orgânicos de aterros sanitários e transformou-se em um motor de formação de agentes comunitários, fomento à agricultura urbana, valorização de culturas ancestrais e produção de composto orgânico. Com um investimento de R$ 250 mil proveniente de uma emenda parlamentar encaminhada pelas covereadoras da Mandata Bem Viver, somada a toda experiência adquirida a partir da estruturação que se deu com o fomento da Saúva, a Compostagem Terra Orgânica expandiu seu raio de ação, provando que o verdadeiro impacto não se mede somente em toneladas, mas em vidas transformadas.

Desenvolvimento contínuo e coletivo

Edson Prado, um dos gestores do Terra Orgânica, conta que a jornada de expansão tem suas raízes na experiência anterior do coletivo e sua evolução após o fomento da Saúva. Em 2024 e 25, o grupo criou um inovador programa de aprendizagem à distância, produzindo vídeos, infográficos, textos, apresentações e o Guia de Compostagem Comunitária que facilitaram muito o acesso ao conhecimento sobre compostagem. A metodologia incluía até lições de casa, ou melhor, “temas de pátio” – tarefas práticas como testar a germinação de sementes no composto produzido –, que criavam uma conexão tangível com o aprendizado. O sucesso foi tão expressivo que revelou uma verdade fundamental: a maior riqueza não era o volume de resíduos processados, mas a capacidade de criar novos núcleos de replicação do conhecimento, como as Centrais de Compostagem formadas pelo Centro de Tradições Ylê Asè Egi Omim e Jardim do Beija-Flor.

Esta percepção ampliou a missão do grupo. Se antes a pergunta central era “quanto compostamos?”, agora o foco passa a ser cada vez mais “quantos agentes de transformação formamos?”. Foi com essa lógica que a emenda parlamentar foi canalizada para três projetos estruturantes, executados em parceria com a Prefeitura de Florianópolis e outros territórios. Edson afirma que “a gente entende hoje que nossa maior métrica de impacto não é o volume compostado. Elas são os agentes prontos e capacitados para exercer essa mudança nos territórios”.

Territórios e coletivos fortalecidos

O carro-chefe é o projeto “Implementação de Compostagem Comunitária e Fomento à Agricultura Urbana em Territórios Locais”, que atua em três frentes. No Território Indígena Goj Ta Sá, o foco é na produção de alimentos para uma casa de passagem que chega a abrigar 600 pessoas no verão. Na Escola Infantil da Associação de Moradores da Lagoa do Peri (ASMOPE), que se encontra dentro de uma Unidade de Conservação, a iniciativa apoia uma instituição que há 50 anos sobrevive com parco apoio de verbas públicas, atendendo cerca de 60 crianças da comunidade. E no Espaço Vivendo e Aprendendo, na complexa comunidade da Maloka, no Estreito, a compostagem e a horta foram integrados ao contraturno escolar, ao lado de aulas de judô, hip-hop e capoeira. A implementação neste último território exigiu até mesmo uma conversa prévia com líderes locais para assegurar a circulação da equipe – um detalhe que ilustra o compromisso e a determinação de ir aonde a transformação é mais necessária.

Em cada um desses territórios, um agente comunitário recebe um incentivo financeiro para dedicar-se às atividades. Este é um elemento-chave do modelo, que reconhece a necessidade de remunerar o trabalho comunitário para garantir sua perpetuidade, especialmente em locais onde professores e voluntários já estão sobrecarregados. Edson conta que “a gente pensou: tem que vir uma pessoa que tenha o mínimo de interesse no assunto e receba uma grana para que ela pelo menos não gaste para fazer aquilo e assuma a responsabilidade”.

Paralelamente, o Laboratório Terra Orgânica, no Campeche, passa por uma significativa transformação física. O espaço está sendo equipado com três leiras impermeabilizadas de 12 metros com cobertura de baixo custo, um sistema de tratamento de água cinza através de um circulo de bananeira e um galpão para armazenamento de ferramentas. Todas as soluções são pensadas para serem replicáveis, mesmo para projetos sem acesso a grandes verbas. O local servirá como matriz e centro de formação para toda a rede.

Talvez o projeto mais simbólico é o “Fomento à Cultura Ancestral em Florianópolis”, realizado na Casa de Passagem Indígena Goj Ta Sá. Mais do que uma feira de artesanato, a iniciativa realiza mensalmente um evento que inclui sarau, música e a exposição da arte Kaingang. Como legado, está sendo construído um mini museu itinerante com painéis concebidos por pesquisadores indígenas e um designer, que são inaugurados em cada feira mensal. “Isso é muito potente, entende? A gente tem conseguido ampliar muito a visão do Goj Ta Sá dentro da cidade com essa feira”, se alegra Prado.

Em sua primeira edição, no Dia dos Povos Indígenas da cidade, a feira com o lançamento do mini museu atraiu 400 pessoas e ampliou a visibilidade do território, aproximando a população da cultura indígena que habita a própria cidade. “Essa amarração de participação tem sido complexa. Como é que a gente buscou contornar isso? Vamos então buscar alternativas onde se faz necessária a participação dessa galera no processo de construção do conhecimento”, expõe Edson Prado.

Dificuldades que geram aprendizados e crescimento

A execução dos projetos contemplados pela emenda parlamentar trouxe consigo desafios burocráticos consideráveis – a necessidade de três orçamentos para cada item, comprovação fotográfica do uso de cada item, laudos, contratos, prestação de contas, responsável técnico e etc., tudo isso tem exigido trabalho intenso da equipe para implementação e monitoramento da execução da proposta, que é constantemente fiscalizada pela Secretaria Municipal de Licitações, Contratos e Parecerias. Mas esse processo é encarado como um aprendizado crucial para a profissionalização e sustentabilidade futura das iniciativas. “É uma construção, não é? Então precisa de organização e transparência na hora de construir as coisas… você não vai ter dinheiro agora, mas lá na frente, você vai poder tomar uma cerveja na sua casa, tranquilinho, sabe? Porque você está plantando as coisas na maior retidão possível”.

O grande salto conceitual está na compreensão de que o ciclo se completa quando o composto produzido deixa de ser um fim em si mesmo e se transforma em um meio para gerar alimento, autonomia e resgate cultural em territórios em vulnerabilidade. É a materialização de uma agroecologia que entende que a circularidade e a compostagem não são apenas dos nutrientes do solo, mas das relações e das emoções entre as pessoas e seus saberes. “Não conseguimos entender um processo como uma via de mão única. Toda essa experiência dentro da rede… (exemplifica) a necessidade de circularidade, de troca dentro da rede”, finaliza Edson.

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