Matéria publicada em 11 de agosto de 2025.
“O que diria uma cana-de-açúcar depois de séculos de exploração?” Essa pergunta ecoa no cerne de “Solo da Cana”, espetáculo solo da multiartista Izabel de Barros Stewart, que volta ao Rio de Janeiro em curta temporada entre 14 e 24 de agosto, no Teatro Futuros (Flamengo). Com direção do renomado coreógrafo João Saldanha, a obra ficcionaliza a perspectiva de uma “mulher-cana” para discutir monocultura, colonialismo e a atrofia do sensível na contemporaneidade. A mesma narrativa poética e provocadora ganha forma no livro Solo da Cana, publicado pela Editora Numa, onde a voz da cana-de-açúcar se desdobra em versos, prefácios e reflexões que fertilizam novos sentidos.

Uma dramaturgia que brota da terra
Em cena, Izabel Stewart encarna a voz de uma cana-de-açúcar — símbolo histórico da exploração agroindustrial — para tecer críticas afiadas ao apagamento das diferenças e à mercantilização da vida. O palco quase vazio, ocupado apenas por um banco, uma garrafa de cachaça e uma trouxa, ganha densidade através do texto poético, da iluminação e direção de João Saldanha e da trilha sonora de Antônio Saraiva, criando uma experiência imersiva que convida o público a alargar o horizonte sensível.
Izabel de Barros Stewart compartilha que a concepção de Solo da Cana surgiu de seu envolvimento com o ativismo ambiental e de uma necessidade pessoal de dar vazão a inquietações que ultrapassam o individual e não dizem respeito só a ela mesma. A cana-de-açúcar, no espetáculo, assume o papel de uma personagem-símbolo, representando a lógica da monocultura agroindustrial e suas consequências, e quer se libertar das amarras colonialistas. “Ela encarna a cultura mono-agro-pop, que se alastrou mundo afora, e vem transformando a vida em mercadorias, pessoas em produtos e a natureza em recurso. (…)Trata-se de uma arte viva, no sentido de que ela acontece presencialmente e se transforma a cada apresentação”, explica.


Sobre a colaboração com João Saldanha, diretor do espetáculo, Izabel ressalta a sintonia criativa entre os dois: “Ele é um jardineiro, um paisagista, uma pessoa que se relaciona com o universo vegetal. Além da relação de amizade e admiração profissional, houve uma cumplicidade no interesse do tema que nos alimentou mutuamente durante todo o processo, e que é perceptível em cena”. A parceria, marcada por confiança e admiração, foi um “trabalho de mutirão”, onde João teve total liberdade de interferir na proposta inicial e construir, junto com Izabel e produtoras, a concepção e confecção do trabalho. Isso tudo foi essencial para dar forma cênica ao texto e às reflexões propostas pela artista.
A peça, que já passou pelo Centro de Artes da Maré, Espaço Abu, Plante Rio (Fundição Progresso) e circulou por Minas Gerais, Brasília, Pernambuco e interior do Rio de Janeiro, chega agora ao Teatro Futuros.

Livro Solo da Cana
“Tamu junto! A fuga é uma estratégia sem saída.” Esta foi a premissa para desabrochar o Solo da Cana, uma dramaturgia de embate e comunhão. Depois de ganhar voz pela artista Izabel de Barros Stewart, o depoimento da cana-de-açúcar chega impresso para ser saboreado pelo leitor. O texto, assinado pela mesma artista, dança pelas páginas, insinuando as nuances e os estados de humor experimentados em cena junto com o público. Trata-se de um manifesto em verso que parte de um lugar de fala inesperado – um ser vegetal reduzido a uma commodity – sobre temáticas comuns que tocam todos nós, ainda que não do mesmo modo. Em qualquer caso, uma provocação para sair do conformismo e pôr encanto no mundo.
Publicado pela Editora Numa, o livro traz ainda um prefácio de João Saldanha, que além de dirigir a encenação, acompanha de perto a trajetória da autora. Aza Njeri, professora do Departamento de Letras da PUC-Rio e crítica teatral e literária, assina a apresentação situando o trabalho como uma “ecodramaturgia”, “reivindicando e construindo novas propostas de relações ecossistêmicas”, declara. Um posfácio escrito pela própria Izabel oferece a dimensão do processo de criação e, por fim, temos o testemunho de Kelli Mafort, que coloca em perspectiva a peça em relação à sua experiência pessoal como assentada da reforma agrária. Portanto, um livro que reúne muitas vozes e diferentes ângulos sobre um trabalho capaz de fertilizar os sentidos de quem entra em contato.
SERVIÇO
“Solo da Cana” com Izabel de Barros Stewart
14 a 24 de agosto (quintas a domingos)
Sempre às 19h
Teatro Futuros (R. Dois de Dezembro, 63 – Flamengo)
Ingressos pelo Sympla
Siga no Instagram: @solodacana
Cenacultores do Solo da Cana:
Texto e atuação: Izabel de Barros Stewart
Direção: João Saldanha
Direção de produção: Ana Paula Abreu e Renata Blasi
Assistente de produção: Flavio Moraes
Trilha sonora: Antônio Saraiva
Preparação vocal: Pedro Lima
Figurinos e adereços: Mauro Leite
Costureira: Maria de Jesus
Iluminação: João Saldanha
Design gráfico: Roberto Unterladstaetter
Fomento e coordenação administrativo-financeira: Associação de Fomento Saúva