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Agroecologia em rede: Agrofloresta, articulação política e Educação Ambiental como ferramentas de regeneração e resistência cultural

Matéria publicada em 6 de agosto de 2025.

Regenerar um mundo cada vez mais desconectado com a natureza e cheio de crises ambientais não é tarefa fácil, exige paciência, persistência e muita firmeza de propósitos para provocar transformações culturais duradouras. À frente de projetos como o Arte na Terra na Fazenda São Luiz, o histórico Mutirão Agroflorestal, o Centro Arquipélago na Fundição Progresso e as Saúvas Agroecológicas, Denise Amador trabalha para tecer redes combinando educação ambiental prática e agroecologia com articulação política.

Na Fazenda São Luiz, o Arte na Terra vai além do ensino ambiental convencional: crianças experimentam o cuidado com a terra, jovens manejam abelhas e sementes, e avós compartilham quitutes e memórias do café em uma educação ambiental que mistura afeto, trabalho e história. Esse é apenas um dos projetos articulados por Denise, que há anos conecta iniciativas agroecológicas como uma verdadeira “formiga-saúva” da regeneração socioambiental.

Enquanto o Mutirão Agroflorestal se prepara para a Cúpula dos Povos na COP30, o grupo formado por iniciativas agroecológicas da Rede Saúva Jataí, as Saúvas Agroecológicas, enfrenta o desafio de unir agricultores rurais e urbanos em rede, buscando superar as diferenças de disponibilidade de tempo na roça e na cidade. Já no Rio de Janeiro, o Centro Arquipélago (ancorado na Fundição Progresso) tem superado amarras burocráticas para se tornar um hub de educação ambiental conectando iniciativas, educadores e produtores agroecológicos.

Esta matéria mostra como Denise, também conhecida como Potô, e seus parceiros da Rede Saúva Jataí estão construindo, passo a passo, uma alternativa concreta e viável ao modelo de agronegócio que degrada o ambiente – onde o saber tradicional e a ciência se encontram, as escolas aprendem na prática e os encontros viram atos de resistência cultural. Um trabalho que começa na terra, mas mira na mudança de mentes e corações.

Arte na Terra

Em meio à paisagem da Fazenda São Luiz e da região de Ribeirão Preto, o projeto Arte na Terra segue tecendo conexões entre educação, agroecologia e cultura. Sob gestão de Anayra Giacomelli há três anos e coordenação de Rodrigo Junqueira e Denise Amador, a iniciativa amplia seu alcance, recebendo escolas e grupos diversos, como o Sesc, que promove vivências intergeracionais focadas em agrofloresta, vida no campo e valorização das histórias das trabalhadoras locais. A proposta vai além do conteúdo técnico: busca “tocar corações” por meio de dinâmicas sensoriais, como sentir as árvores e cantar na floresta, enquanto resgata a memória de um território marcado pelo êxodo rural e pela expansão do agronegócio.

As atividades se dividem em três possibilidades: Dias de Campo (sensibilização e práticas como colheitas e plantios), Estudos do Meio (abordagem pedagógica com temas solicitados por escolas, como formação do solo ou ciclos do café) e Estágios Agrícolas (imersão em trabalho manual rural, como manejo de agrofloresta, horta, abelhas e coleta de sementes). Além disso, visitas técnicas atendem universidades e escolas especializadas. A equipe, com monitores rotativos e estagiários, reflete a diversidade do projeto, que também se destaca pela resistência cultural. A Festa Junina anual, por exemplo, tornou-se referência regional ao reviver tradições caipiras em risco de desaparecimento e unir produtores.

 “A gente quer muito trabalhar o coração, porque a partir daí é que realmente a pessoa fica ‘flechada’ pelo interesse pelo meio ambiente. Mas todas atividades são igualmente interessantes, ajustando-se às faixas etárias, aos objetivos, enfim, ao que a escola está buscando”. Denise Amador – Arte na Terra, Mutirão Agroecológico, Plante Rio

Denise Amador destaca que o Arte na Terra equilibra-se agora sem apoio direto e a rede segue como suporte indireto, facilitando conexões e trocas, como a presença dela, integrante da Saúva, na fazenda. Enquanto isso, a Fazenda São Luiz se consolida como polo de educação ambiental e agroecológica, mostrando que é possível conciliar práticas sustentáveis, resgate histórico e inclusão comunitária com respeito à terra, ao ambiente e aos seres vivos.

Saúvas Agroecológicas

Potô também integra e coordena o grupo Saúvas Agroecológicas da Rede Saúva Jataí, onde enfrenta o desafio de conectar grupos de diferentes estados do Brasil com rotinas pesadas no campo e nas cidades. Reuniões bimestrais têm sido espaços de inspiração, com relatos de experiências como a de Vera Fróes, da Viridis, (que busca comprar ervas medicinais como a erva baleeira e capim-limão de outros coletivos), mas a concretização de parcerias comerciais ainda esbarra na adequação à demanda, produção e a logística. A expectativa é que o encontro presencial em 2025 acelere essas sinergias.

“São rodadas muito inspiradoras. A última, o pessoal estava assim: ‘Caramba, não acredito, aprendi muito, estou saindo dessa reunião super inspirado de ver o trabalho dos outros, ver o desafio de um, etc’. Estarmos juntos, em contextos diferentes, porque são contextos muito diferentes geograficamente, socialmente, culturalmente, é muito rico”, conta Denise.

Plante Rio, Centro Arquipélago e Fundição Verde

Paralelamente, Denise e Izabel Stewart, conselheira da Rede, atuam na estruturação do Centro Arquipélago, uma rede de educação e cooperação socioambiental ancorada na Fundição Verde (RJ), com apoio do Ministério do Meio Ambiente. A proposta, inspirada e estimulada pelo professor Marcos Sorrentino, visa fortalecer o movimento ambiental através de cursos de formação, comunicação integrada e articulação política. Apesar dos entraves burocráticos, como a elaboração detalhada de planos de ação antes da liberação de recursos, o grupo avança no Plante Rio (com o tema “Integrando Rios DiVersos”), evento que vai reunir coletivos de todo o estado e outras regiões do Brasil em 2025. Denise Amador explica que este recorte sugere “esses rios que se encontram para darmos força para essa temática dos encontros, da estruturação de uma rede, de por que estar mais junto. Então, esse é o mote do Plante Rio 2025.”

“Se o movimento ecológico estivesse mais articulado, com mais força, a gente teria mais potência para lutar contra esses PLs de devastação, a COP30, enfim, teria mais potência. Então, ele (Marcos Sorrentino) investe muito nos arranjos coletivos, o que é muito potente e também desafiador”, reflete Denise.

Um dos avanços foi o convite para um mediadora contribuir com a estruturação da equipe da Fundição Verde para a causa ambiental ser algo mais transversalizado no Centro Cultural Fundição Progresso. Denise explica que “para além do Plante Rio, estamos realmente fazendo com que a identidade verde, ecológica, de vestir essa camisa, seja algo que esteja nas entranhas da Fundição”.

Mutirão Agroflorestal

Já o Mutirão Agroflorestal, rede que completa 30 anos em 2026, prepara-se para a COP30 em Belém. Com um núcleo local e hospedagem garantida, o coletivo planeja possíveis ações artísticas e articulações com a Cúpula dos Povos, além de documentar sua trajetória histórica. A aposta é que a COP seja palco para divulgar iniciativas da Rede Saúva Jataí como o recém lançado Fundo Futuro Ancestral (um fundo que rompe com a lógica tradicional dos fundos de investimento ao incluir, em seu próprio regulamento, o compromisso de repassar a maior parte da sua taxa de administração para comunidades indígenas brasileiras), conectando-se a movimentos indígenas e amazônicos. Enquanto isso, a assembleia anual do Mutirão será em outubro na Fazenda São Luiz marcará os preparativos para esse novo ciclo de ativismo agroecológico.

“Enquanto mutirão, a gente está em pleno entendimento do nosso papel na COP, para planejar a nossa ação. Estamos nesse momento. Então é um negócio meio invisível… Talvez o movimento (ambiental) brasileiro como um todo não vá em peso, mas o movimento amazônico está muito articulado por aí, e o movimento amazônico é muito indígena. (Vamos) Falar no Fundo Futuro Ancestral, estar lá com os indígenas e entrar nessa pauta”, afirma Denise.

Ela conclui dizendo que o trabalho no Projeto Ni Eshe Vanay, junto ao povo Yawanawá poderá ser divulgado e se articular com outros projetos similares. E que o Mutirão Agroflorestal acabou de participar da promoção de um mutirão no CSAA Jardim das Delícias em Rio Bonito, Lumiar, junto à turma da MUDA e várias pessoas da região. Dando mais um exemplo de um tipo de sinergia muito fértil dentro da Rede Saúva Jataí.

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