Matéria publicada em 14 de julho de 2025.
Depois de dez anos de espera, a Associação Amanu finalmente verá seu grande sonho se tornar realidade: a inauguração do armazém físico, marcada para o dia 18 de julho, com um arraial que promete animar a cidade. O evento, que incluirá forró e bingo, celebra muito mais do que a abertura de um espaço comercial – representa a materialização de anos de trabalho coletivo e resistência dos agricultores familiares de Jaboticatubas, em Minas Gerais.
O armazém, que já opera no formato virtual, agora ganha endereço fixo para impulsionar a venda direta dos produtores associados, especialmente para aqueles que ainda não se adaptaram totalmente ao comércio online. O espaço foi planejado para ir além da simples comercialização: equipado com uma cozinha industrial, permitirá o processamento de excedentes agrícolas, transformando frutas como manga em polpas e legumes como pepino e jiló em conservas. A iniciativa busca reduzir perdas e aumentar o tempo de prateleira dos produtos, garantindo maior renda para os agricultores.

Convite para o Arraiá do Armazém Raízes do Campo
Luiz Felipe Lopes, associado e coordenador executivo da Associação Amanu, nos fala dessa realização: “Estamos nos preparando para isso, adequando às regras da vigilância sanitária. No futuro, o espaço também terá uma cozinha industrial para processamento de produtos, ainda em nível informal, porque para a venda formal precisaríamos de uma mini agroindústria — que esperamos montar em breve.” Segundo Luiz, Jaboticatubas tem uma cultura que permite a venda informal, mas a ideia dos gestores do projeto é que eles se adequem cada vez mais à legislação, com produtos registrados e código de barras.


A festa de inauguração é aberta a todos e Luiz estende o convite aos parceiros da Rede Saúva Jataí. “Na festa de inauguração queremos fechar a rua, fazer um forró de arromba, com atividades típicas do município, como bingo. É bem divertido e animado”, convida.
“O armazém é um ponto de comercialização para produtos dos agricultores familiares da Associação Amanu, que são agroecológicos e muitos participam da rede Camponês a Camponês. O armazém é a ponta do iceberg desse projeto; por trás dele está toda a mobilização e troca entre produtores agroecológicos que a Rede Saúva vem fortalecendo.”
Luiz Felipe Lopes – Associação Amanu e Projeto Camponês a Camponês
Qualificar para gerar autonomia
Por trás desse empreendimento está a rede Camponês a Camponês, que retomou suas atividades em ritmo acelerado, organizando encontros, remunerando deslocamentos e executando projetos com os recursos disponíveis do fomento da Saúva. Os promotores agroecológicos, após um ano e meio de formação intensiva, agora assumem o protagonismo do processo, com encontros bimestrais que alternam entre trocas de experiências e capacitações técnicas. “Tivemos uma formação dos promotores em metodologia agroecológica. Aprendemos muito, ainda temos que aprimorar, mas agora é hora da rede caminhar com suas próprias pernas”, reflete.


A metodologia camponês a camponês tem permitido ao coletivo agroecológico da associação atender diversas demandas comerciais e ampliá-las em quantidade e qualidade segundo Luiz Felipe. Culturas como melancia, melão, batata inglesa, maracujá, abacaxi, solicitadas por diversos consumidores, dentre eles escolas e cantinas como a da UJIMA- Cozinha Viva, estão entre as prioridades dos promotores e promotoras da agroecologia de Jabó e Santana para iniciar ou ampliar a produção, com o auxílio da rede de apoio técnico e das quartas-feiras agroecológicas . As quartas-feiras agroecológicas visam dar continuidade ao desenvolvimento de técnicas e práticas agroecológicas capazes de enfrentar os desafios produtivos que se apresentam no dia a dia da agricultura e pecuária.
A Rede Agroecológica de Camponês a Camponês Jabó – Santana também contará nesse ano com uma formação específica para os facilitadores da metodologia. Cada promotor ou promotora conta com um acompanhamento mensal de um ou uma facilitadora para auxiliá-la em sua comunicação com o coletivo que compõe a Rede e na promoção da educação popular libertadora. Nessa formação em 5 módulos presenciais, João Portella trabalhará como facilitador de acompanhamento do processo de ensino-aprendizagem do promotor e conceitos fundamentais como educação popular, agroecologia, agricultura familiar, etc. Esse curso está sendo financiado pelo PAFE 2025 (Programa de Apoio à Formação de Educadores e Educadoras).


A força que vem dos desafios
Apesar dos cortes de recursos e das dificuldades logísticas – como o alto custo do transporte devido às estradas de terra –, a rede se manteve resiliente. Cada promotor receberá R$ 2 mil para investir em melhorias produtivas, desde a implantação de novas culturas até a recuperação de solos e nascentes, sempre com acompanhamento técnico de instituições como a EMATER, EMBRAPA e a EPAMIG.
A resistência dos agricultores ficou ainda mais evidente após as pressões políticas no início do ano, que tentaram enfraquecer a associação. Em vez de recuar, Luiz afirma que “pelo visto, isso só uniu mais o grupo, que está determinado a manter o projeto firme e forte”. O último encontro, realizado no dia 5 de julho na casa de uma das promotoras, Sergina, teve uma grande participação, reforçando o espírito colaborativo que sustenta a iniciativa.

A inauguração do armazém não é apenas um marco simbólico, mas um passo concreto em direção a uma economia mais justa e sustentável. Enquanto se preparam para celebrar com música e alegria, os agricultores da Associação Amanu provam que, mesmo diante de desafios, é possível construir alternativas viáveis – e, acima de tudo, coletivas.
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