Matéria publicada em 24 de junho de 2025.
Num cantinho de Minas Gerais, onde a tradição quilombola se encontra com a inovação social, nasceu uma teia que está redesenhando o mapa da fome. No 37° Encontro No Coreto, a Teia da Terra apresentou as sinergias que a compõe, falou sobre o projeto que começou humilde em 2018 na comunidade de Santa Cruz, no Serro, e hoje tece conexões que vão desde as roças familiares até cozinhas em Nova Lima. Tudo começou durante a pandemia, com a demanda por projetos de segurança alimentar – e a resposta veio em forma de rede, unindo quem produz e quem precisa comer. Além de Ramoci Leuchtenberger e Bruno Mallmann compartilharem as histórias e filosofias da Teia da Terra, o encontro teve a declamação de um Cordel de Bráulio Bessa por Wagner Gomes e uma sessão de Cantoterapia com Sara Carvalho.

A história da Teia da Terra se confunde com a da Associação Bem Cuidar, que desde 2018 atuava na comunidade quilombola de Santa Cruz. Quando a pandemia chegou, o projeto encontrou sua verdadeira vocação: conectar a produção agrícola das comunidades à mesa das famílias vulneráveis de Serro. O que começou como uma simples ponte entre produtores e consumidores logo se transformou em uma rede complexa e cheia de vida.
No coração desse sistema estão duas organizações irmãs: a Associação Bem Cuidar, focada em saúde comunitária, e o Instituto Bem Criar, que nasceu do antigo Projeto Bem Criar e trabalha com educação ambiental. Juntas, elas promovem os Encontros Teia da Terra, que já estão em sua quarta edição e reúnem agricultores de três comunidades quilombolas – muitos dos quais nem se conheciam antes.
Ramoci Leuchtenberger conta que a conexão com a Rede Saúva Jataí trouxe um novo fôlego ao projeto. Izabel de Barros Stewart, do Solo da Cana, foi uma das que fortaleceu esses laços com sua apresentação para os quilombolas, criando uma sensação de pertencimento que ultrapassa as fronteiras de Minas Gerais. As parcerias se multiplicaram: a Fazenda Ouro Verde oferece cursos de agricultura biodinâmica; a Escola da Mata, que fica na fazenda, abriu as portas para os produtos da Teia; e a Ujima, Cozinha Viva, de Nova Lima, já incorporou em seu cardápio o arroz, feijão, canjiquinha e fubá produzidos pelas comunidades.


Mas a Teia da Terra vai além da simples comercialização de alimentos. Nas comunidades, as próprias agricultoras pediram capacitações em bioconstrução, biofertilizantes e técnicas agrícolas sustentáveis. No ano passado, foram realizadas quatro oficinas de agricultura biodinâmica, ensinando métodos que respeitam a terra e fortalecem a produção local.
Agora, o projeto lançou uma campanha de financiamento coletivo na plataforma Saúva, com meta ambiciosa: arrecadar R$50 mil para completar as 2.000 cestas anuais que já distribui há quatro anos. As opções de doação foram pensadas para criar vínculos reais entre doadores e comunidades. Por R$50 mensais, alguém pode doar uma cesta básica. Com R$100, transforma-se em coprodutor do CSA (Comunidade que Sustenta a Agricultura). E quem doar R$150 por mês pode “adotar” uma família produtora, conhecendo sua história e até recebendo amostras do que plantam.
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Bruno Mallmann, um dos coordenadores, explica com entusiasmo: “A página da campanha está no portal da Saúva (www.gruposauva.com), em ‘Iniciativas’. Lá tem um vídeo explicativo com a Dona Vera e todos os detalhes”. Ele se refere a uma das quilombolas que personificam o espírito do projeto – mulheres que veem na agricultura não apenas sustento, mas a continuidade de suas tradições.


Na segunda parte do encontro, Sara Carvalho ministrou uma sessão de Cantoterapia com os participantes onde propôs dinâmicas e exercícios vocais com o objetivo de alívio das tensões, ativação energética de áreas da cabeça, expressão e promoção do bem-estar geral. Ao fim, todos entoaram juntos o cântico: “Sobe a chama, sobe a chama, mais alto, mais alto, ilumina, ilumina, nossas festas, nossas almas”.
O que faz a Teia da Terra ser especial é justamente essa capacidade de transformar doações em relações, alimentos em histórias, e necessidades em oportunidades. Enquanto o Brasil ainda luta para combater a má distribuição de renda, a desigualdade social e a fome, iniciativas como esta mostram que a solução pode estar nos laços que tecemos entre nós – como as varas de pau do cordel que inspirou o projeto: separadas, frágeis; juntas, inquebráveis.
Leia abaixo o Cordel de Bráulio Bessa declamado por Wagner Gomes No Coreto:
“Esse cordel fala da Força da União e diz assim: ‘Um homem sábio e já velho, com um olhar vago e distante, convocou seus quatro filhos e falou por um instante: ‘Lá no fundo do quintal tem quatro varas de pau, por favor, vão lá buscar.’ E mesmo sem entender o que o pai mandou fazer, responderam: ‘É pra já.’ Quatro adultos para o mundo, para o pai, quatro crianças, recebendo a lição daquela voz fraca e mansa. Quatro filhos, quatro varas, frente a frente, cara a cara. E o velho pai ordenou que cada um quebre a sua. Depois jogaram na rua o pedaço do que sobrou. ‘Vamos buscar mais quatro varas’, disse o velho paciente, e falou: ‘Porém agora vamos fazer diferente.’ Juntou as varas na mão, amarrou um cordão e disse: ‘Podem quebrar.’ Botaram força, gemeram, mas ligeiro entenderam que não ia adiantar. E o velho disse: ‘Meus filhos, esta é a minha herança. Não são carros importados, nem dinheiro na poupança. Lhes deixo essa lição: caminhar com união é o nosso melhor transporte. Sigam a vida unidos, que jamais serão vencidos, pois juntos somos mais fortes.’”

Por Paulo Sérgio Pires.