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Na CSAA Confraria da Horta, a agrofloresta se transforma em sala de aula, conectando pessoas e natureza

Matéria publicada em 16 de junho de 2025.

O que acontece quando crianças da cidade, agricultores experientes e avós quilombolas se encontram no meio de uma agrofloresta? Na CSAA Confraria da Horta, em Minas Gerais, essa mistura virou rotina – e cada visita transforma o sítio numa sala de aula ao ar livre. Aqui, o cheiro de terra molhada se mistura com o barulho de enxadas e risos, enquanto Daniel Novaes e Carol Zaratini ensinam (e aprendem) com cada grupo: crianças de 8 anos descobrem que comida não vem do supermercado, agricultores trocam técnicas sobre solo vivo, e idosos revivem saberes quase esquecidos.

Tudo começou naturalmente: o que era para ser um projeto de CSA (Comunidade que Sustenta a Agricultura) e agrofloresta virou também um espaço de educação, trocas de técnicas agrícolas e vivências ambientais a céu aberto. Agora, recebem desde escolas até grupos profissionais, sempre com a mesma regra: quem pode contribuir financeiramente ajuda, quem não pode, troca conhecimentos com os educadores, que também saem beneficiados.

“Quando vem um agricultor tradicional, ele traz técnicas que a gente não conhece. Quando vem uma criança, ela faz perguntas que nos fazem repensar tudo”, conta Daniel. Essa troca virou o combustível do projeto, que já planeja ampliar a estrutura para receber mais visitantes – sempre com os pés na terra e as cabeças prontas para aprender.

Do campo para as redes: o nascimento das vivências

Tudo começou de forma orgânica. A Confraria da Horta já trabalhava com um sistema de agrofloresta apoiado pela Comunidade que Sustenta a Agricultura (CSA), e, à medida que compartilhavam seu cotidiano nas redes sociais, o interesse de outras pessoas foi crescendo.

“Isso começou naturalmente. A gente desenvolve aqui um sistema de agrofloresta através da iniciativa da CSAA, e, conforme a gente vai usando a comunicação pelas redes sociais, foi criando interesse. E então foi nascendo esse movimento das pessoas virem aqui para acompanhar de perto, na prática, como funciona o sistema de agrofloresta e também a questão da economia participativa, solidária, através da comunidade”, explica Daniel.

Um público que surpreende

Se no início a expectativa era receber principalmente agricultores interessados em técnicas agroflorestais, a realidade mostrou que o apelo da Confraria da Horta é muito mais amplo.

“A gente despertou interesse não só de agricultores, que são as pessoas ligadas diretamente ao trabalho, mas também um público variado: desde comunidades quilombolas, pessoal de artesanato e, principalmente, as escolas. E aí que foi a grande recompensa. As escolas: primeiro, terceiro ano, escola primária de forma geral. Então, vem criança, vem agricultor, vem outros públicos adultos e também pessoal da terceira idade”, relata Daniel.

Para cada grupo, uma abordagem diferente. Enquanto agricultores buscam técnicas de produção e mercado, as crianças vivenciam a natureza de forma lúdica — tocando a terra, aprendendo sobre compostagem e até participando de cirandas.

Ensinar aprendendo e aprender ensinando

Daniel destaca que o processo é uma via de mão dupla: enquanto compartilham seu conhecimento, ele e sua companheira, Carol, também aprendem muito com os visitantes.

“A gente acha que vai só falar, só ensinar, e, na verdade, a gente aprende muito mais. Porque a pessoa também vem interessada em ouvir o que a gente está dizendo e acaba que ela traz muita experiência, muito conhecimento”, afirma.

Essa troca é especialmente rica quando os visitantes trazem perspectivas diferentes, questionamentos novos e até técnicas alternativas que enriquecem o trabalho já desenvolvido no sítio.

Sustentabilidade financeira e social

Manter as portas abertas para tantas vivências exige recursos, mas a Confraria da Horta adota um modelo flexível, baseado na economia solidária. Algumas atividades são remuneradas, outras contam com apoio de instituições, e há ainda aquelas em que a contribuição é isenta ou espontânea.

“Se a pessoa não pode contribuir, ela está precisando que a gente é que contribua. E, ao contrário, quando vem um outro grupo que pode contribuir, a gente sugere a contribuição sem um valor específico”, explica Daniel.

Essa filosofia permite que o projeto atenda desde escolas públicas até grupos de agricultores familiares, sempre com o foco na acessibilidade e no impacto social.

Planos futuros de ampliação de estrutura e alcance

Com um sítio de dois hectares, a Confraria da Horta já recebeu grupos de até 150 pessoas em eventos de imersão. Mas os planos não param por aí.

“A gente quer aumentar o alojamento, melhorar a didática com materiais, oferecer apostilas, quadros… Estamos planejando um espaço maior, com refeitório para 100 pessoas, quartos coletivos e até uma área específica para estágios agrícolas com escolas”, revela Daniel.

O objetivo é tornar o local ainda mais acolhedor para receber não apenas visitas rápidas, mas também imersões de longa duração, aprofundando a conexão entre os participantes e a agroecologia.

Semeando um novo olhar sobre a agricultura

A Confraria da Horta demonstra como um espaço de agrofloresta pode se tornar um ambiente de aprendizado, troca e transformação. O projeto mostra que a conexão com a natureza é essencial para entender de onde vem o alimento, como cuidar da terra e como valorizar saberes tradicionais. O sucesso da iniciativa está na simplicidade deste modelo unindo produção sustentável, educação ambiental e economia solidária de forma viável.

Mas isso levanta questões importantes: Por que projetos como esse ainda são raros? O que impede que mais pessoas tenham acesso a experiências como essas? Se um sítio de dois hectares consegue impactar escolas, famílias e comunidades, como poderíamos ampliar essa ideia? A Confraria da Horta é um exemplo de como a relação entre seres humanos e natureza pode ser reconstruída com respeito, colaboração e cuidado. O desafio que fica é: como levar esse modelo para mais lugares e torná-lo parte do cotidiano?

E, como bem resume Daniel: “Quando é bom para todos, é que é bom. Se for bom só para uma parte, não está legal.” Nesse espírito, a iniciativa segue crescendo, provando que a agroecologia e a arte-educação podem, juntas, plantar as sementes de um futuro mais justo e sustentável.

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