Matéria publicada em 17 de junho de 2025.
Enquanto o mundo discute modelos de investimento em sustentabilidade, o Mutirão Agroflorestal — coletivo com quase 30 anos de atuação em agrofloresta e apoiado pela Saúva — mostrou que a verdadeira regeneração parte do ser humano e suas relações, entre humanos e com as demais espécies. Nesta matéria, Denise Amador, cofundadora do grupo, e que hoje compõe a equipe Saúva, revela os aprendizados e desafios vividos em duas viagens internacionais realizadas em 2025 que deram a oportunidade de levar o trabalho da agrofloresta brasileira e sua visão de mundo para os debates. Atualmente, nas buscas por soluções regenerativas que consigam integrar a produção de alimentos saudáveis com a regeneração ambiental, o Mutirão Agroflorestal tem se destacado como uma referência brasileira em agrofloresta e práticas sustentáveis. Nestes dois eventos internacionais, o coletivo ampliou sua visibilidade e abriu portas para colaborações multilaterais transformadoras.
LARIS
O primeiro evento foi o Latin American Regenerative Investment Summit (LARIS), realizado em Bogotá, Colômbia, entre 12 e 14 de março. Este evento, que também contou com a presença de Leandro Almeida, gestor e representante da Saúva Jataí, teve o objetivo de unir investidores e regeneradores para conexões, trocas e um aprendizado ampliado das dimensões da economia voltada à regeneração.
“O MustardSeed, organização europeia e uma das patrocinadoras do evento, nos convidou porque já sabia que estava encerrando suas atividades e quis nos apresentar a pessoas/instituições que pudessem apoiar nosso trabalho”, conta Denise Amador, uma das representantes do Mutirão no evento. Junto a ela, foram também Patrícia Vaz e Helena Maltez, cofundadoras do Mutirão. Denise teve o desafio de apresentar o trabalho do Mutirão e as necessidades de financiamento para suas ações nos cinco núcleos aonde atua, num pitch de 05 minutos. No fim, conseguiu transmitir a essência do projeto, que se diferenciou dos demais por não ter fins lucrativos, focar em agricultores familiares, assentamentos e comunidades indígenas, buscando processos regenerativos com os seres humanos integrados, gerando abundância de alimentos e vida.

Patrícia Vaz, Denise Amador e Helena Maltez do Mutirão Agroflorestal.

“Aprendemos muito lá, mas percebemos que o Mutirão era o único projeto sem fins lucrativos sendo apresentado. O evento era mais voltado para startups e negócios com retorno financeiro, como o EatCoffee, que produz um alimento tipo chocolate a partir do grão de café. Nossa abordagem era diferente dos demais, trazendo fortemente a necessidade de subsídios para a regeneração e para o trabalho com comunidades”, reflete Denise.
O evento teve a predominância de iniciativas da Colômbia e México, alguns outros países da América Latina, poucas iniciativas brasileiras, como o Mutirão, e um representante do Sistema B, com quem fizeram contato.

“Sob o ponto de vista da Saúva, manter as conexões, ampliar as conexões com as instituições parceiras do Mutirão Agroflorestal, que é um dos parceiros importantes da Saúva dentro dessa comunidade, foi algo de muito valor que o Laris permitiu dessa integração regional nas Américas, de forma geral. E para a Jataí, acho que o encontro foi de suma importância para podermos conversar dentro de um ambiente de regeneração financeira com investidores muito alinhados com as causas da Jataí, ampliando as conexões e as possibilidades de investimento nos produtos que a Jataí tem desenvolvido. “
leandro almeida – gestor da sáuva e jataí
MustardSeed Jamboree
O segundo evento, o MustardSeed Jamboree, ocorreu na França, em Saint-Paul-de-Vence, de 6 a 9 de maio. Com um formato mais livre e temáticas como liderança, biosfera e regeneração, o Mutirão propôs debates sobre redes de colaboração e agrofloresta. Enquanto o primeiro tema rendeu uma possível parceria com uma universidade da Costa Rica, o segundo enfrentou resistência de alguns participantes que a viam apenas como uma técnica agrícola. “Nós vemos que no Brasil a agrofloresta está muito forte em quantidade e qualidade e é tida como uma visão de mundo com múltiplas camadas (filosóficas, políticas, técnicas e até espirituais). Temos muito a compartilhar com o restante do mundo”, contou Denise. O diálogo fluiu resultando em contatos promissores, como uma colaboração com um grupo do Quênia, que possui uma plataforma similar à da Muda e ficou interessado em trocas de conhecimento e intercâmbios.


Denise complementa a entrevista falando da importância dessas viagens: “São oportunidades incríveis para ampliar perspectivas e entender como outros países abordam a regeneração. Posicionar o Brasil mostrando que somos referência em agrofloresta. Fortalecer parcerias como a do Quênia e contatos com o Mustardseed. E inspirar metodologias com a observação de formatos que podem ser adaptados, como o próprio Jamboree.”
