Matéria publicada em 18 de junho de 2025.
Entre galinheiros comunitários, hortas urbanas e crianças aprendendo a transformar cascas de alimentos em adubo, a Serra da Misericórdia, no Rio de Janeiro, constrói diariamente sua própria relação com a agroecologia. Recentemente, essa experiência cruzou fronteiras quando Ana Paula Santos, gestora e educadora do Centro de Integração da Serra da Misericórdia (CEM), participou de um intercâmbio nos Estados Unidos, organizado pela Universidade Rutgers. O encontro, parte do ciclo “Ecologias Negras, Geografias Globais” realizado no Brasil, revelou surpreendentes paralelos entre as lutas por território e sustentabilidade nas periferias brasileiras e norte-americanas. E ainda como comunidades negras nas Américas estão usando a agroecologia como ferramenta de resistência e geração de renda – e agora esses conhecimentos estão prestes a chegar ao Rio de Janeiro com projetos concretos.
Pontes Entre as Américas
A viagem a convite da Dra. Priscila Ferreira da Universidade Rutgers em Newark, reuniu cerca de 25 lideranças e estudantes da América do Norte e do Sul para discutir memórias e experiências dos povos africanos, afro-americanos e povos negros do Brasil. “Além dos debates na universidade, conhecemos experiências práticas como a Coalizão da Água em Newark, projetos de agricultura urbana na Filadélfia e escolas afrocêntricas. Tive a oportunidade de apresentar a experiência do CEM, com foco na Escola Popular de Agroecologia”, destaca Ana Paula Santos do Centro de Integração da Serra da Misericórdia. A Coalizão da Água luta contra a poluição em bairros periféricos e realiza projetos de agricultura urbana que transformam terrenos abandonados em hortas produtivas.
Do Brasil, foram três experiências convidadas para apresentar o seu tipo de organização e suas experiências em agroecologia: o MPA (Movimento de Pequenos Agricultores), o assentamento Terra Prometida em Caxias (experiência de reforma agrária) e o CEM (experiência de agroecologia na favela). Ana conta que “o foco era discutir tanto nossas potências – o que conseguimos realizar – quanto nossas fragilidades, como as violências e a questão fundiária na Serra da Misericórdia. Também abordamos como envolvemos a educação e as mulheres nesse processo, com um olhar especial para a Escola Popular de Agroecologia, que articula nossos eixos de atuação no território”.

Um dos momentos mais marcantes foi visitar uma fazenda que pertenceu a ex-escravizados e hoje produz flores, mostrando como a terra pode ser um espaço de cura e autonomia. Ana também se impressionou com sistemas de compostagem que envolvem centenas de pequenas empresas, captando resíduos para a alimentação de animais, minhocários, produção de adubo e gerando renda para comunidades. “Uma diferença que notei é que lá as pessoas falam de geração de renda sem tabus. As organizações precisam receber bem, precisam gerar recursos. Suas estruturas são muito boas porque entendem que o dinheiro precisa circular, e isso não é visto como problema”, reflete.
“O sistema de compostagem, por exemplo, é algo que gostaria muito de destacar e que temos trabalhado aqui com a Saúva e os parceiros do Laboratório Terra Orgânica. Foi tão significativo que eles querem vir em outro momento só para conhecer nosso trabalho com compostagem”. Ana Paula Santos – CEM – Centro de Integração da Serra da Misericórdia
Ana também conheceu plantações de Cannabis, que tem o cultivo legalizado nos estados de Newark e Vermont, e pode ver como isso tem sido potencializado tanto para a geração de renda e autonomia quanto para a redução da violência, através do uso medicinal e recreativo.
O CEM no Mapa Internacional da Agroecologia
Durante a viagem, houve uma aproximação muito forte com a Universidade de Vermont onde foram celebrados os três anos do Instituto de Agroecologia. Isso fortaleceu a ideia de ampliar as trocas com Universidades do Rio de Janeiro, como a UFRJ, que é parceira da Rede de Agroecologia.
Ana apresentou o trabalho desenvolvido na Serra da Misericórdia, incluindo a Escola Popular de Agroecologia, onde crianças e mulheres aprendem a cultivar alimentos, criar galinhas e produzir compostagem. Essas atividades, consideradas “coisa de elite”, são na realidade uma herança dos saberes tradicionais de avós e bisavós que sempre cuidaram da terra, explica Ana.


Os resultados dessas trocas já estão surgindo, como um projeto internacional em andamento para fortalecer a rede entre experiências agroecológicas no Rio e nos EUA, com foco em geração de renda e direito à terra. Em julho, uma comitiva da Universidade Rutgers visitará a Serra da Misericórdia para conhecer de perto as hortas comunitárias e a escola de agroecologia. Ana conta que “não é um convite aberto, mas estratégico – queremos que alguém da Saúva participe, porque é o momento do CEM apresentar nossa rede de parceiros. Faremos uma caminhada pela Serra, mostrando o asfalto, a favela, a pedreira e nossas experiências de agroecologia”.

Esse intercâmbio é crucial porque um dos seus objetivos é a construção de um projeto que articule as três experiências citadas anteriormente – MPA, Terra Prometida e CEM – com suas redes. “Eles estão escrevendo um projeto com recursos significativos para manter essa circularidade entre povos sul-americanos, afro-americanos e afro-brasileiros, com foco em agroecologia, cuidado, reparação histórica e direito à terra”, explica Ana Santos.
E em dezembro, o CEM receberá ativistas dos EUA para um Encontro de Composteiros na Fundação Iberê Goulart. Ana conta que um dos convidados para as trocas sobre a luta negra e produção agrícola é o Mourão, filho de um Pantera Negra , que recentemente foi liberado para ficar em casa após 50 anos preso.
Agroecologia como herança cultural
A reflexão sobre o Dia Internacional do Meio Ambiente trouxe à tona a percepção de que, na Serra da Misericórdia, o ambientalismo nunca foi visto distante da vida cotidiana. As atividades com crianças nesta semana – desde o cuidado com as galinhas até o plantio de chia – reforçam que os saberes das avós sobre cultivo e alimentação já carregavam, em si, toda uma ética ecológica.
Para Ana, a agroecologia não é apenas uma técnica, mas uma forma de honrar a história e a cultura negra. Ela cita uma frase do cantor Djonga: “Você é dono do agora, mas o antes é mais importante que isso”. Na Serra da Misericórdia, as crianças já entendem que “o meio ambiente está no meio da gente”, e que cuidar da terra é também cuidar de si mesmas e de sua comunidade. A compostagem tem sido uma ferramenta sensível e prática para trabalhar a questão ambiental, pois as crianças veem a transformação daquilo que é considerado lixo, ajudando a ressignificar esse conceito.



Durante a Semana da Biodiversidade, os alunos do CEM trabalharam com ideias de Ailton Krenak, que foi muito citado, e surpreenderam ao mostrar como absorveram esses ensinamentos no dia a dia. Ana finaliza falando das avós que sempre foram ambientalistas, quando mantinham hortas e cuidavam de árvores, e hoje as crianças entendem isso quando cozinham com talos, plantam e cuidam de animais. “O meio ambiente é tudo isso: o que comemos, como nos relacionamos, como cuidamos do espaço e como honramos nossos antepassados, que sempre reflorestaram e construíram saberes”, reflete.
Esta experiência revela uma conexão profunda entre território, identidade negra e resistência ecológica em diferentes realidades das Américas. Mostra que a Agroecologia pode ser uma ferramenta política de reparação histórica, ao resgatar saberes ancestrais de comunidades negras e periféricas. Enquanto no Brasil ainda há um certo tabu em associar projetos comunitários a modelos econômicos viáveis, nos EUA a valorização da geração de renda como parte essencial da sustentabilidade é encarada com naturalidade. Nos mostra que a aproximação com universidades para novas parcerias e projetos concretos podem formar uma rede global de resistência e cuidado. E que a importante reflexão sobre agroecologia e ancestralidade não é uma novidade, mas um retorno consciente às nossas raízes, uma forma de honrar o passado enquanto se constrói um futuro mais justo e sustentável.