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Oroboro chega aos cinemas em Março

Matéria publicada em 18 de março de 2025.

Em um momento em que os olhos do mundo se voltam para o cinema brasileiro, o novo filme do diretor Pablo Lobato lança luz sobre arte e educação em um documentário sensível e emocionante. O longa acompanha dois grupos de jovens estudantes de Minas Gerais que, por meio de processos imersivos coletivos, encenam Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa, e A Flauta Mágica, de Mozart. Através dessas montagens teatrais, Oroboro revela a intensidade da formação artística na juventude e seu impacto na construção do pensamento e da subjetividade.

Depois de 10 anos muito concentrado em seu trabalho como artista plástico e distante do cinema, Pablo recebeu um chamado de um aluno dessa escola antroposófica entre Belo Horizonte e Nova Lima dizendo que precisava de um amigo que registrasse a apresentação de teatro da sua turma. Logo no primeiro contato, em Abril de 2018, o diretor já sentiu que havia ali algo maior do que um simples registro: “Oroboro nasce de um espanto. Vou a um ensaio, sou tomado pela força daquele encontro e não consigo mais sair de perto desse grupo de jovens. Espero que o filme consiga traduzir a qualidade das relações de presença que vivenciei.”

Filmado entre 2018 e 2022, com locações principalmente nas dependências do colégio, situado no Vale do Sereno, o documentário se insere em um contexto paradoxal: um espaço de formação cercado por arranha-céus e por uma urbanização acelerada, mas que também resiste com sua paisagem natural e corredores ecológicos. “Oroboro é o nome dessa figura mítica, é essa imagem ou da serpente ou do dragão comendo a própria cauda. Ela faz referência a essa aliança entre vida e morte, continuidade, fluxo, eternidade. Eu sinto nessa experiência com os meninos um convívio bonito entre dualidades. Até mesmo na paisagem ali, aquela escola em meio a talvez uma das maiores especulações imobiliárias do Brasil, recebendo os momentos de silêncio deles. Isso me lembrou o Grande Sertão Veredas, o Guimarães lida com essa dualidade, a figura do Diadorim e do Diabo, o sertão é vereda, o homem é mulher, o bandido é herói, essa dualidade me inspira no filme”, explica Lobato.

Entre as realizações de Pablo Lobato estão Acidente (2006), Ventos de Valls (2013) e Dos 3 aos 3 (2023)

Oroboro promete ser uma experiência cinematográfica que transcende o documentário tradicional, abrindo espaço para a reflexão sobre os processos de aprendizagem através da arte e reafirmando o cinema como ferramenta essencial de expressão e educação. Mesmo retratando as convivências e dinâmicas do ambiente escolar, o diretor relata que não se inclina a nenhuma natureza institucional ou nas concepções antroposóficas: “O filme se apoia em algo muito presente na antroposofia, mas que entendo como anterior a ela: a comunhão entre arte e formação humana. Rudolf Steiner trata isso com grande cuidado e sensibilidade, e essa perspectiva orienta a antroposofia. Me coloco nesse lugar de revelar a qualidade da presença entre esses diferentes – esses alunos -, o respeito e o interesse genuíno entre eles.”

O documentário se destaca por sua abordagem cinematográfica que entrelaça diferentes tempos e realidades, em um fluxo contínuo e eterno, como o Oroboro. A montagem fluida e elíptica constrói uma narrativa imersiva, onde os espectadores transitam entre os ensaios das duas peças, os palcos, os espaços do colégio e das imersões, acompanhando as descobertas e os desafios vividos pelos jovens. A trilha sonora original e o desenho de som assinados por O Grivo contribuem para a atmosfera sensorial do documentário, que se equilibra entre o real e o onírico, o teatral e o cotidiano.

Produzido pela Claroescuro Studio e distribuído pela Fênix Filmes, com apoio da Lei Paulo Gustavo, Oroboro contou com o patrocínio da Saúva Jataí para sua finalização. “A Saúva surgiu no meio do processo, no meio do caminho, na encruzilhada. Foi muito bonito e surpreendente. Eu nunca tinha feito um filme que contasse com uma doação, eles perceberam a força do projeto e confiaram. A gente espera que o filme possa atender a esse movimento que a Saúva e a Jataí vem fazendo, essa nutrição em torno da formação, da agricultura, de uma saúde de modo geral. É um desejo ambicioso que eles estão movendo, e o filme fez essa movida, então é hora dele ir pro mundo”, conta o diretor.

Quase 7 anos depois das primeiras filmagens, a obra finalmente chega às telas de cinema: “Esses ‘demoronamentos’ que eu vivo em alguns processos de realização precisam necessariamente trazer alguma coisa boa, então o tempo vira aliado. O filme demora, mas ele vai incorporando esse tempo, isso vai fazendo parte do filme de alguma forma”, relata Pablo. O diretor destaca o desafio de acessar salas de cinema fora de Belo Horizonte, especialmente em um cenário onde as produções premiadas no Oscar ocupam grande parte da programação. Ainda assim, Oroboro vem conquistando espaço e chega a diferentes cidades do Brasil, ampliando seu alcance e encontrando seu público.

“Vai ser um processo de construção. É fundamental que possamos contar para as pessoas que podem se interessar que esse filme existe”, almeja Lobato. Oroboro terá sessão de lançamento somente para convidados no dia 20 de Março no Cine Belas Artes, com exibição seguida de um debate com o diretor e os integrantes das montagens teatrais registradas no documentário. As exibições abertas ao público, nesta primeira semana, se iniciam no dia 20 de março. Para mais informações acesse o Instagram da Claroescuro: https://www.instagram.com/claroescuro.studio

Confira o trailer do filme:

 “Mire veja: o mais importante e bonito, do mundo, é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas — mas que elas vão sempre mudando. Afinam ou desafinam. Verdade maior. É o que a vida me ensinou.” – Guimarães Rosa

Confira as salas e horários de exibição do filme abaixo:

OROBORO – Sessões nos cinemas | 20 a 26 de março 🎞️
📍 Rio de Janeiro – Estação Net Botafogo
🕒 14h20 | 20 a 26/03 (todos os dias)

📍 Salvador – Saladearte CineMAM
🕒 16h35 | 20 a 25/03 (quinta a terça-feira)
🕒 17h45 | 26/03 (quarta-feira)

📍 Porto Alegre – Cinemateca Paulo Amorim
🕒 17h00 | 20, 22 e 25/03 (quinta, sábado e terça-feira)

📍 São Paulo – Espaço Petrobras de Cinema
🕒 14h00 | 20 a 26/03 (todos os dias)

📍 São Paulo – Centro da Terra
🕒 18h00 & 20h00 | 26/03 (terça-feira)

📍 Belo Horizonte – Una Cine Belas Artes
🕒 14h00 | 21, 22, 23, 25 e 26/03 (sexta, sábado, domingo, terça e quarta-feira)
🕒 18h00 | 21, 25 e 26/03 (sexta, terça e quarta-feira)

Por Luana Abreu – estudante de jornalismo da UFMG.

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