Matéria publicada em 15 de setembro de 2022.
Este ano, o PAFE (Programa de Apoio à Formação de Educadores e Educadoras – realizado pelo Instituto Oju Moran) implementou, junto às contrapartidas individuais dos participantes, uma ação que seja desenvolvida coletivamente pelas pessoas que estejam recebendo suporte do Programa. E o primeiro resultado desta novidade do programa é a alavancagem para a construção de uma nova moradia para um casal que perdeu tudo na enchente de Paraty(RJ) no começo de 2022.
Educadores e educadoras de Paraty, que integram o Programa, realizaram o Baile da Amizade, no dia 13 de agosto, com apresentações musicais, rifa, bingo, comidas e bebidas cuja renda se consolidou em um aporte financeiro (cerca de cinco mil reais) para dar início à construção de uma nova casa para Mariana Vergara e Fernando Alcântara, também educadores participantes do PAFE.


A proposta para os educadores desenvolverem uma ação coletiva, conta Fabíola Guadix (coordenadora do PAFE), foi apresentada no edital de 2021 para execução a partir deste ano. Após dois anos de encontros online devido à pandemia e apesar do anseio pelo presencial, o Programa manteve as atividades no ambiente virtual, pois, além de haver educadores e educadoras em locais e acessibilidades bastante distintos, a exigência da volta às aulas, com o aprendizado dos alunos defasado e a crise econômica instaurada implicaram bastante nesta decisão, justifica Guadix. Assim, a ideia da ação coletiva, para além das entregas individuais, veio como forma de aproveitar o potencial do grupo e promover, além de uma confraternização presencial, algo benéfico ao município de Paraty: “essa ação veio como uma proposta muito aberta”, explica Fabíola.
“Desde o início do ano começamos a coletar as sugestões: uma horta no bairro? Uma horta coletiva que a comunidade possa usar?”, exemplifica Fabíola. Mas veio o imprevisto: uma grande enchente assolou Paraty em abril e o impacto nas pessoas e na cidade foi devastador. E como havia pessoas no grupo de participantes do PAFE dentro das famílias atingidas pela enchente, tomou-se por primeira ação coletiva a ajuda a estas pessoas. Assim, um casal tornou-se o foco da atenção e ação coletiva do PAFE: Mariana Vergara e Fernando Alcântara perderam móveis, eletrodomésticos e, também, a casa, situada no bairro da Roça. “Foi unanime do grupo ajudar este casal a construir uma nova casa onde a defesa civil apontou como permitido”, conta Fabíola. Hoje, a situação da família é de moradia no Centro de Paraty, em um local de aluguel social. Então, para alavancar a construção da nova casa, os educadores e educadoras decidiram promover o Baile da Amizade para arrecadar fundos e dar início à construção.
Mãos à obra
“A produção da parte musical da festa se deu através da união dos participantes do PAFE 2022, como um encontro de cultura popular”, conta o Fernando Alcântara, que cuidou, junto com Débora Saraiva, desta parte do evento e vem trabalhando a salvaguarda da música caiçara de Paraty, através da Ciranda Caiçara, folia de reis, Folia do Divino e brincadeiras folclóricas. A festa teve início com a Dj Teluryka (Antonia Regina); logo após o grupo Nega Pisô (Débora Saraiva é integrante) tocou coco de roda e, como convidados externos, se apresentou o Fandango Bacurau, de Ubatuba, um grupo de jovens Ubatuba-SP que também vem mantendo vivo o fandango ubatubano. Encerrando a festa, o Grupo Cirandeiro de Parati, do qual Fernando Alcântara faz parte, tocou o baile com canções que retratam o modo de vida das populações tradicionais da cidade. O palco da festa foi a Escola Comunitária Cirandas, que gentilmente cedeu o espaço para a realização do Baile das 14h até o final das apresentações.


O evento também promoveu outras ações para alavancar a arrecadação: o lutier ou “Fabriqueiro” Roberto Ferrero, da Praia da Enseada de Ubatuba, integrante do grupo Fandango Bacurau, levou uma a rabeca (de madeira caixeta e partes em cedro rosa) para sorteio; o coletivo de educadores de Paraty, puxado por Sandra Martinez e André Límax, vendeu todos os (200) números das rifas; e o bingo foi “cantado” por André Límax e contou com várias prendas, hospedagens e alimentação na Praia do Sono (através da Sheila Vilela), dois remos caiçaras produzidos pelos artistas paratienses Lucas Araújo e Gustavo Parati; além de ensaio fotográfico com Mariana Vergara, peças em tricô da Fabíola Guadix, prendas amigurumi da Orangotango Loja, lanche do Manuê, masssagem da Camila Jussiani, bonecas da Priscila Lima, pomada medicinal da Juliana Antonia, artesanatos da Aldeia Tekoa Itachi, suportes para vasos artesanais pelo Luiz Américo entre outras premiações. A parte de alimentação ficou a cargo de Iaci Sagnori, Lara, Juliana Antonia, Lanna Mara e Carlinhos, além de outros participantes que colaboraram com mais pratos e a turma do bar Pedro Libânio e Elison Fernandes.



Fabiola avalia o Baile da Amizade, de forma presencial, com resultados que vão além da ajuda para a construir a nova casa de Fernando e Mariana: o resultado da ação coletiva dos educadores do PAFE está na confraternização, no afeto, na força da coletividade, no fortalecimento do programa, no senso de comunidade, tudo isso promove e estabelece bases para construir um futuro estabelecido nestas ações e relações. “E vale ressaltar que esse senso de coletividade, comunidade e afeto, para mim, são valores muito importantes que devem estar presentes na escola, na educação de um forma geral. A escola de hoje, que em sua maioria, é a mesma de sempre, continua reproduzindo a sociedade meritocrática e desigual. Sem o trabalho das relações nada muda”, conclui Fabíola Guadix.
Carta Aberta de Fernando e Mariana
Desde Abril, quando aconteceu a enchente aqui em Paraty e tivemos a casa que nós morávamos interditada pela defesa civil, uma grande rede de apoio, muitas pessoas que não nos conheciam, colaboraram de diversas formas. Cada contribuição foi de suma importância para que a nossa família seguisse adiante.
Porém, desde o primeiro momento, o Coletivo de Formação de Educadores de Paraty – Pafe, criado pelo instituto Oju Moran, Saúva e Escola Cirandas, instituições onde somos parceiros, se colocaram como nossa família, onde desde o início, se propuseram a nos ajudar nos doando fogão, geladeira e máquina de lavar, além de se propor a realizar o Baile da Amizade, onde vários amigos e irmãos, a maioria educadores, ligados ao programas, se desdobraram para realizar o evento, que foi um sucesso.
Esta carta de agradecimento a cada um que colaborou com a nossa luta, mas principalmente aos parceiros do Oju Moran, Saúva, Escola Cirandas e toda família PAFE, que além de toda a colaboração pós enchente, também contribuem com nossa formação acadêmica!
Gratidão!!!
Fernando Alcantara e Mariana Vergara – 12/09/2022
*O PAFE
O PAFE (Programa de Apoio à Formação de Educadores e Educadoras) existe desde 2013, em Paraty/RJ, e tem como proposta criar um fundo de apoio financeiro aos profissionais da área da educação para fomentar todo tipo de formação a partir da iniciativa dos próprios educadores. Estão inclusos cursos ou experiências formativas livres que podem ser estudos científicos, acadêmicos, vivências práticas, e até formações pensadas e criadas coletivamente pelos próprios por grupos de profissionais. Quem desenvolve este projeto é o Instituto Oju Moran.
Qualquer pessoa que atue na educação formal (em instituições de ensino), ou na educação não-formal (ONGs, projetos, etc), ou até mesmo na educação informal (que praticam atividades formativas em espaços públicos, bairros, comunidades), pode participar do programa.
Todo o processo de participação no PAFE é completamente desburocratizado e simples. Há apenas duas contrapartidas que são esperadas dos participantes que tiverem a formação financiada pelo programa. Primeiro, cada educador deve realizar uma atividade socioeducativa dentro do município de atuação, em qualquer local e com qualquer público, desde que contribua para o acesso ao conhecimento e para mitigar as necessidades educacionais da região. Além desta, os apoiados participam, uma vez por mês, de uma Mesa de Trocas, isto é, um espaço para compartilharem experiências e refletirem sobre a educação.
Desde a criação do PAFE, mais de 500 mil reais foram investidos em 121 atividades de formação, que já apoiou 760 educadores e educadoras do município de Paraty/RJ. Além disso, mais de 2000 pessoas foram atendidas nas ações de contrapartida.
Desde dezembro de 2021, o PAFE ampliou o programa para o município de Nova Lima (MG). A expansão veio na esteira de colaboração da rede Saúva/Jataí. No município, esta parceria está sendo feita com o Instituto Ouro Verde (INOV), que, em 2022, vem aplicando internamente o mesmo modelo com educadores e outros profissionais.