Topo

Parceria do PAFE com INOV qualifica a formação de professores e funcionários da escola

Matéria publicada em 6 de março de 2023.

O PAFE (Programa de Apoio à Formação de Educadores e Educadoras), projeto criado e aplicado em Paraty/RJ, chegou no Instituto Ouro Verde (INOV), em Nova Lima, no ano passado. O objetivo do programa é disseminar ações socioeducativas, viabilizando a qualificação de profissionais que tem dificuldade em arcar com os custos de cursos e formações. O programa pede como contrapartida uma ação social do educador em algum local que esteja carente de investimentos, seja alguma escola pública, associação comunitária ou de bairro; e o professor escolhe onde quer aplicar esta retribuição. Isso dá mais amplitude ao Programa porque, além de qualificar os profissionais da escola, também abrange crianças e professores da comunidade onde está inserida, multiplicando esse conhecimento, Karla Rosa, professora de Artes do INOV.

Karla Rosa, conta que, à princípio, pensava em fazer um contraturno para oferecer aulas para crianças de escolas públicas mais próximas. Porém, o processo não se mostrou tão simples, pois a escola com a qual fecharam a parceria para contrapartida não é perto e surgiu a questão logística do transporte para os alunos. Assim, a proposta, no início, foi um projeto piloto com doze professores; um deles passou a ensinar no Morro do Cascalho, na região do bairro Buritis/BH, onde desenvolveu atividades de canto e capoeira com as crianças. Os outros profissionais foram para a Escola Municipal Harold Jones, próxima ao INOV, em Nova Lima, onde aplicaram no contraturno escolar oficinas de matemática, inglês, olaria, bordados, desenhos e pinturas indígenas. “Foi um projeto grande, onde atendemos essa comunidade todas as semanas ao longo do ano”, explica Karla.

Em uma das oficinas de contrapartida do PAFE, os alunos produziram cerâmicas

O encerramento do projeto piloto no INOV foi com a professora Jéssica Martins, que se inspirou em artistas indígenas especialistas em cerâmicas baseadas em animais. Ela contava histórias sobre os animais, os alunos desenhavam e faziam a cerâmica, desde bater a argila até a moldagem das peças. Depois, as esculturas dos alunos foram levadas para um forno em Nova Lima para serem queimadas e, por fim, entregues ao final do ano letivo para os alunos. Tanto a queima à lenha quanto a elétrica tem custo alto: as peças assam durante horas; e o PAFE custeou a parte de material e do forno.

A oficina de cerâmica possibilitou aos alunos colocar a mão na massa e vivenciarem todo o processo de produção

Os professores do INOV fizeram formações variadas, em pedagogia, pedagogia curativa, pedagogia Waldorf, química e outras frentes. Mas, agora em 2023, o programa está com outra cara: são outros projetos contemplados e as pessoas já entendem melhor como o PAFE funciona.

“O PAFE é tão lindo que as pessoas desconfiam. Elas perguntam se para fazer a formação que querem, elas tem que “apenas” dar aulas em contrapartida. E a troca é muito mais social: bem diferente do que o mercado econômico pede; e isso causa estranheza até que se entenda a beleza do projeto”

Karla Rosa – professora de Artes do Instituto Ouro Verde

Segundo Karla, o que mais a emociona é ver que o aprendizado vai servir para o mundo, não só agora, mas para sempre. “Um pessoa que se forma em pedagogia curativa vai atuar em outros lugares por toda a vida. Com o PAFE, a lógica é outra: queremos que eles sejam seres que atuem no mundo, com qualidades e características próprias. Esse olhar de cada um para o mundo é uma coisa muito rica”, explica a professora.

Outra atividade de contrapartida realizada pelos educadores que participaram do PAFE levou estudantes de escolas públicas para o contato com uma horta orgânica.

Quebra de paradigmas

Em 2023, o PAFE pretende trazer educadores das escolas públicas para dentro do programa. O processo de entendimento da filosofia do programa, formação em troca de contrapartida social, e da Rede Saúva Jataí ainda não é tão simples de ser absorvido. “Nós ficamos achando que é quase um sonho todos esses projetos e iniciativas apoiadas pela Saúva e Jataí. Parece impalpável, uma utopia. E quando começa a acontecer, as pessoas vêem que é possível. Isso quebra a nossa dura realidade e mostra que aquele sonho pode ser colocado na realidade, é palpável”, comemora Karla.

Um outro projeto aprovado pelo PAFE em 2023, o Jornada Afirmativa, traz a questão da afro-descendência que será trabalhada por dois professores negros. Eles darão aulas sobre esse tema para uma equipe de dezessete professores do INOV com mais sete vagas para educadores, preferencialmente, de escolas públicas. O INOV se diferencia de escolas Waldorf tradicionais porque oferecem um alto número de bolsas, buscando incessantemente a redução das desigualdades e ampliação da diversidade, segundo Karla; ela acrescenta que ainda não é o ideal; e que o PAFE ajuda a trazer essa realidade (das escolas públicas, associações de bairro) para a escola e torna-la mais diversa racialmente, por exemplo. “Não é um projeto para um ou dois anos, é para toda a vida”, conclui a professora.

As cerâmicas produzidas pelas crianças foram inspiradas em animais

Outras Frentes

O INOV segue buscando mais proximidade com a Escola Municipal Harold Jones, onde mais atuam através do PAFE e que funciona até o 5° ano. Em conversa com a direção desta municipal de Nova Lima, propuseram que os formandos, que normalmente seguem para outras escolas públicas, ganhem bolsas para estudar no INOV. Esta ação precisa de suporte para o transporte dos alunos até o INOV, como um programa de caronas entre os pais, já utilizado entre as famílias do INOV. Isto, ressalta Karla, é educativo para essas famílias, para a escola e para professores.

“À princípio, a escola (municipal) perguntou se queríamos as crianças que estavam com as melhores notas; e nós respondemos que queremos as crianças que estão com mais dificuldades em se alocar em uma escola; que possamos trazer para elas a questão da arte e que haja maior envolvimento das famílias (no aprendizado). Quem tem as melhores notas pode ser valorizado também, mas não é só isso, tem outras coisas e outros olhares que queremos valorizar”, explica Karla.

Uma outra frente do PAFE fomenta a formação de três cozinheiras da UJIMA – Cozinha Viva, que está dentro do INOV e atende alunos, professores e comunidade escolar. Elas farão um curso de gastronomia que, sem este apoio financeiro não seria possível pelo alto custo. “Além da contrapartida nas escolas públicas, nós temos as reuniões mensais, chamadas de Mesas de Trocas, onde elas trazem os projetos e cursos que estão desenvolvendo. A ideia é que as pessoas tragam experiências, acertos e dificuldades para compartilhar. Essas trocas são importantíssimas porque disseminam conhecimento”, conclui

Compartilhar: